O restaurante ABS

I.


Isidoro tinha vindo do sul do Estado para Porto Alegre aos vinte anos, tentara a Universidade sem sucesso no exame vestibular e terminara por praticar o comércio, primeiro como gerente de um varejo de bebidas e depois ele próprio estabelecido com bar e restaurante, mediante a compra das existênciasde um antigo bar da Avenida Alberto Bins. Estava ali na periferia do Centro havia bastante tempo, com uma freguesia que não se poderia dizer de elite, ou de classe A, mas suficiente para manter à distância desordeiros, bêbados habituais e prostitutas exibicionistas. Tinha herdado, naturalmente, alguns fregueses do antigo bar, de seus chopes e sanduíches, que tinham boa cotação. A Alberto Bins, que antigamente se chamava São Rafael, fora um nicho tipicamente alemão da velha Porto Alegre, pois ali se localizavam algumas das instituições mais importantes da comunidade germânica: o Turner Bund, que depois da nacionalização forçada se tornou SOGIPA, Sociedade Ginástica Porto-Alegrense, o colégio da Deutscher Hilfsverein, metamorfoseado em Colégio Farroupilha, e mais a igreja de São José, da Comunidade Católica Alemã, ladeada por duas escolas, uma feminina e outra masculina, ambas com nomes germânicos até a década de 1930. Tudo isso já se nacionalizara, inclusive o nome do restaurante, que antes se chamara Anschluss. Seu salão não tinha mais que umas doze mesas, guarnecidas por toalhas de plástico, que o garçom sempre esfregava com álcool, sem maiores luxos. No balcão de serviço estavam as bebidas de maior consumo; em prateleiras altas, sobre a parede, sobravam algumas garrafas pouco solicitadas, um empoeirado Curaçau e um licor francês, talvez remanescentes do estoque do antecessor, pois Isidoro não cultivava extravagâncias. Também fechava cedo as portas, mantinha música em discos bem escolhidos, sem concessão a vulgaridades de ocasião. E quando algum freguês perturbava a paz do ambiente, bastava a intervenção suasória do garçom, para restabelecer a calma. O Betão, homem que beirava os sessenta anos, tinha praticado luta livre na mocidade e exibia ainda uma formidável musculatura. Era conterrâneo de Isidoro e funcionava como segurança voluntário, sem cobrar nada além de seu salário e de suas gorjetas. A Casa acrescentava dez por cento em todas as contas, e isso lhe garantia razoável rendimento.

Afora a tradição do chope bem tirado, a freguesia era atraída ao ABC pelos peixes bem servidos e bem temperados, pois Isidoro procedia de Rio Grande e conservava algumas boas receitas do litoral em seu cardápio. Nem sempre as cozinheiras ajudavam a manter o padrão das moquecas e dos ensopados, mas o próprio Isidoro às vezes intervinha na cozinha, para garantir o atrativo da Casa. De resto, ele cultivava boas leituras e de vez em quando até surpreendia os clientes intelectualizados com algum poema de Vinicius de Moraes, de Mário Quintana ou de Fernando Pessoa.. E fazia indicação de livros que lhe mereciam apreço. Além do velho Bauer, que ainda conhecera por fora o antigo Anschluss, fregueses habituais do restaurante eram alguns funcionários da Polícia Civil, que atuavam numa delegacia próxima, um aposentado que se dizia “marítimo”, um grupo de jornalistas, os corretores de uma Imobiliária, comerciantes da vizinhança, o professor Maurício, figura obrigatória nos fins de tarde, que ninguém sabia exatamente o que fazia nem como sustentava seus vícios. Mulheres não eram numerosas. Dona Joana, idosa moradora de edifício das proximidades, era cliente antiga, que almoçava todos os dias e pagava suas contas no fim do mês, quando recebia a pensão militar de seu falecido esposo. Uma advogada solitária comparecia às vezes, na hora do jantar, sempre muito séria e desacompanhada. Em algumas mesas, comentava-se a sua pobreza de atrativos físicos; certamente seria uma solteirona. Depois das sete, quando encerrava a clínica, apresentava-se o doutor Urbano, médico que tinha consultório nas proximidades, às vezes acompanhado de sua secretária.

II.


A advogada solitária, que habitualmente jantava apenas uma sopa e assinava seus cheques como Leonor, seguida de um sobrenome indecifrável, se não apresentava atrativos físicos, tinha, entretanto, uma indumentária de bom gosto e de qualidade, denotando possuir polpudos rendimentos. Brilhava-lhe no dedo um anel de rubi, coisa que hoje os jovens bacharéis desprezam.

- Essa doutora não é advogada de porta de cadeia, - comentavam os policiais que a observavam. – Apesar de feia, “mais feia que o mapa do inferno” – dizia o delegado Adalberto, amigo de metáforas originais, ela é capaz de arranjar um sabido que pesquise a declaração de renda da Madame e faça o sacrifício de dormir com ela. O grupo de policiais era mordaz e não deixava passar em branco nenhum acontecimento ou personagem do ABC. O inspetor Jesuíno e o Comissário Aldrovando estavam ainda na ativa e traziam da delegacia para a mesa do restaurante algumas histórias saborosas. E o Adalberto, já aposentado, não abandonava a companhia dos colegas de ofício, comparecendo sempre ao “happy hour” para encontrá-los. Aldrovando era aquilo que, na linguagem dos funcionários públicos se usa rotular como um “caxias”. Dedicado às suas funções, rigoroso cumpridor de horários e de tarefas, amigo de investigações complicadas. Em geral, seus chefes se inclinavam por limitar-lhe os ímpetos investigativos. “Deixa pra lá, Aldrovando. Não complica! Não bota chifre em cabeça de cavalo!”. O comissário se submetia à orientação dos delegados, mas ficava inconformado. E extravasava no cotidiano, fora da repartição, suas inclinações de detetive de novela.

Há muito que o intrigava a personalidade do Professor Maurício. Professsor de quê e de onde? De “professor” tanto eram chamados os técnicos de futebol, como os quiromantes e cartomantes, os treinadores de luta livre ou de natação, além, é claro dos autênticos docentes, tanto os mestres-escola de primeiro grau quanto os catedráticos da Universidade. Certo dia, Aldrovando não se conteve e abordou Maurício diretamente:

- Professor, me desculpe perguntar, mas onde é que o senhor leciona? Ontem, estiveram indagando por um professor da Universidade de Canoas, que frequentaria aqui o restaurante, e eu fiquei imaginando que poderia ser o senhor.

- Não, cidadão, não leciono em Canoas.

E mais não disse o Professor Maurício, que defendia rigidamente sua privacidade. O tratamento de “cidadão” – intuiu o Comissário -, gerava desde logo uma espécie de proteção constitucional contra indiscrições. Percebendo a existência dessa barreira, Aldrovando desistiu da inquirição inoportuna. Mas a resistência excitou-lhe as desconfianças. “Esse cara não é bom peixe” – pensou. Que lhe custava me dizer onde trabalha? Os policiais, parceiros da mesa, logo zombaram de suas suspeitas.

- Vai ver que o cara é professor de corte e costura, ficou envergonhado e não te respondeu – ponderou-lhe o inspetor. E o delegado Adalberto acrescentou – Pode ser que seja um cartomante de ofício e ficou com receio do policial xereta.

Riram muito e pediram outro chope. Chamado até à mesa para esclarecer a dúvida de Aldrovando, o “barman” não elucidou nada. Era, aliás, uma das curiosidades de Isidoro a respeito de sua clientela.

- Eu nunca soube nada a respeito desse freguês. Faz uns dois anos que ele frequenta o bar. Bebe em paz, paga direitinho e não conversa com ninguém. Certa ocasião me disseram que ele dirige uma sociedade filosófica ou científica, ali pela Independência. Mas eu não sei do que se trata.

A advogada Leonor teve mais sorte que os curiosos parceiros de bar. Naquela mesma noite, depois de seu terceiro chope, o Professor Maurício levantou-se, cumprimentou cerimonioso a advogada e pediu licença para lhe fazer uma consulta. Ela o convidou a sentar-se em sua mesa e conversaram.

III.


Vinte e poucos anos de clínica não tinham garantido ao doutor Urbano uma fortuna, mas asseguravam-lhe razoável prosperidade. Desde sua formatura, tinha aberto consultório particular num edifício da Avenida Alberto Bins, onde atendia a uma boa clientela particular e de convênios assistenciais. Queixava-se de que trabalhava muito e não faturava na mesma proporção. Mas isso nunca impedira de ter sua secretária, primeiro uma senhora de longa experiência em clínicas e consultórios, hábil no atendimento aos clientes, metódica, organizada e eficiente. Mas ela se aposentara, obrigando o médico a recrutar e treinar outra atendente, o que não foi tarefa muito fácil.

Diversas moças passaram pelo posto, até que ele se fixasse em Marly, então uma jovem recém casada e de filho pequeno, necessitada de reforçar os ganhos do marido, comerciário de salário baixo. Loira bonita, que apenas pela modéstia dos trajes não luzia seus encantos, foi secretária ativa e eficiente que desde logo se entrosou com as tarefas do consultório. Entretanto, seu casamento durou pouco, e muito breve ela andava às voltas com separação, olhos lacrimejantes durante o serviço, telefonemas angustiados, esquecimentos, perturbações que incomodavam o patrão e quase lhe acarretaram a despedida. Mas essa crise foi superada e Marly divorciou-se, mudando o comportamento reservado que antes mantinha.

Foi só então que Urbano começou a olhar sua secretária com outros olhos, não mais os de um patrão paternal e compassivo. Aos trinta anos, divorciada, agora mais enfeitada, de saias mais curtas e decotes mais ousados, sua secretária passava a ser objeto de sugestões, com odor de aventura.

O casamento do médico, realizado havia vinte anos e com dois filhos adolescentes, já não era o festival de sexo dos primeiros tempos. Os desejos mais fortes adormeceram, rotinas dominavam as relações do casal, e a falta de interesses em comum gerava distâncias de difícil superação. Além de sua medicina, o Dr. Urbano era vidrado em turfe, em cavalos e nas apostas do hipódromo. Fora dos dias de trabalho, era esse o seu passatempo, sem alternativas. Conhecia cavalos de corrida mais profundamente que o aparelho renal da sua especialidade. Sabia-lhes a genealogia, os hipódromos em que tinham corrido e os prêmios que haviam ganhado. Já a esposa ocupava-se em obras de caridade, frequentava igrejas e instituições de assistência social, com grande empenho. A hora em que marido e mulher se encontravam, não havia muito para conversar: algum problema dos filhos, qualquer episódio menos frequente do cotidiano. Os programas de televisão e algum filme absorviam a noite, e nem sempre o interesse cultural dos dois era coincidente.

Foi então que Urbano resvalou perigosamente no adultério com sua secretária. Ela havia brigado com um namorado, andava outra vez chorosa e com ares de depressão, quando o patrão se insinuou como conselheiro e protetor. Não se considerava nenhum adônis, beirava os cinquenta anos bem alimentados, o ventre já se projetava e até começara a frequentar academias e sessões de ginástica. Mas o papel de conselheiro de uma mulher de trinta e poucos anos lhe assentava. Sempre tinham-se dado bem, ele a tratara paternalmente nos momentos difíceis. Urbano sabia que as mulheres em geral, mesmo se reprovem e rejeitem assédio sexual, não gostam de indiferença demasiado respeitosa, nos homens com quem trabalham. Mas, nesse aspecto, o Dr. Urbano ganhava alguns pontos: nunca escondera seu apreço pela secretária, elogiava-lhe os vestidos novos, fazia brincadeiras maliciosas a propósito de namoros de Marly, insinuava-se como um cortejador apenas contido pela distância das idades. Quando ocasião se apresentou, Urbano descobriu seu jogo e se aproximou abertamente da secretária. Passou a convidá-la para os chopes da tarde, combinou almoços antes das consultas e lhe ofereceu presentes como jamais lhe dera em doze anos de convívio. Sobretudo uma gargantilha de brilhantes parece ter vencido todas as eventuais resistências da moça. Na hora da entrega do presente, a operação de ajustar a joia no pescoço da loira, mais os afagos e os agradecimentos calorosos, terminaram em sexo completo e desnudo no próprio consultório, entre os severos diplomas científicos, os quadros de formatura do doutor e os retratos de família.

Naquela noite foram jantaram um linguado a dorê no Restaurante ABC, regado a vinho chileno, despreocupados com o tardio da hora para chegar em casa.

IV.


Os sábados traziam sempre uma novidade, que eram os almoços do Bauer, com seus amigos octogenários. Bauer era talvez o mais velho dos frequentadores do restaurante e aos sábados ao meio-dia reunia uma turma de companheiros, todos moradores ou ex-moradores do bairro. Eram, eles, três a seis, conforme o andar do tempo e da temperatura. Nos dias de calor e sol forte vinham todos, e lotavam a mesa 1, que tinha esse número talvez por ser a mais próxima da cozinha. Das demais mesas ninguém sabia o número.

Nos dias frios e úmidos, o reumatismo, a tosse seca ou as bronquites retinham em casa alguns dos idosos. Só o Bauer comparecia sempre, ele e a sua gargalhada característica, que, segundo o garçom Betão, fazia parar o trânsito da Avenida. Ele se dizia nascido em 1930 com a revolução, e quase fora batizado com o nome de Getúlio em homenagem ao homem que aquela rebelião fizera vitorioso. Escapara dessa desventura por causa da advertência do padre, de que não havia santo com tal nome no hagiológio dos católicos. A alternativa foi ser chamado de Oswaldo em honra do Aranha desse nome. Seus companheiros eram, quase todos, de ascendência germânica, inclusive o Schwarz (preto), que por ser mulato, recebera no colégio esse apelido e o arrastou vida afora. Filho de uma senhora alemã, que o fizera estudar na escola da Hilfsverein, ele se integrou muito bem na comunidade germânica, e, já oitentão, participava da turma do Bauer, na qual era muito estimado. Para caçoar com ele, diziam que ainda estudara no Hindenburg Schule, o que ele contestava, dizendo que ingressara no colégio quando este já se chamava “Farroupilha”. Quanto ao Schwarz, se orgulhava do rótulo, pois seu pai era negro vencedor, que galgara posições na sociedade e no serviço público, chegando a titular de um cartório judicial.

Assunto que intrigava os frequentadores da casa e que às vezes se ventilava era o nome de “Restaurante ABC”. Isidoro não sabia explicá-lo, pois já comprara o estabelecimento com essa denominação. Betão também o ignorava. Só quem dizia saber a razão da excêntrica escolha era o Bauer. O nome original seria Anschluss, que significa “união” em língua alemã. Sobrevindo a campanha de nacionalização de 1938, impunha-se a adoção de outra denominação. A simples tradução para o vernáculo seria inviável, pois o título de “União” prestava-se à confusão com outras organizações. Ademais lembrava a vitória nazista que fora a absorção da Áustria mediante plebiscito. Outras combinações de letras também corriam risco de interpretações viciosas. Até que alguém sugeriu as três letras iniciais do abecedário, que não querem dizer nada nem tinham qualquer concorrente assemelhado. Teria nascido assim o ABC, por falta de melhor inspiração. Era a história que contava o Bauer, rematando-a com a sua tradicional gargalhada.

Uma reivindicação da mesa 1 foi reiterada naquele sábado a Isidoro, pelo velho Oswaldo Bauer:

- Herr Isidoro: A minha turma aqui desejaria mais comida alemã no seu cardápio.

- Seu Bauer, já caprichei nas salsichas de vitela com chucrute. Não gostaram ? – indagou Isidoro, sempre atencioso com os fregueses da mesa 1.

- Gostamos, sim, mas a culinária alemã tem outras coisas muito boas. Nós não gostamos só de sauerkraut. Tem que botar uma frau aí nessa cozinha. E que saiba fazer uma apfelstrudel para a sobremesa.

- A minha freguesia é muito variada, os gostos variam. E, a não ser nos sábados, quando vocês aparecem, os alemães não são muitos, - ponderou-lhe o dono da casa.

- Isso é uma verdade, - interveio o Kurt, outro dos integrantes da mesa-. Quando esta avenida se chamava São Rafael, os alemães predominavam, absolutos. Agora a sociedade mesclou e o próprio comércio está misturado. Tem até uma loja de turco ali na esquina.

- Que saudade que vocês todos têm daquele tempo! – interveio o Schwarz em tom levemente provocador;

- É claro que todos temos saudade, e tu também, - respondeu-lhe o Kurt. – Aquela Porto Alegre dos anos trinta era muito melhor que esta de hoje.

- Isso é conversa fiada, Kurt. Nós todos temos saudade é da nossa juventude e temos raiva da 8idade8a.

A gargalhada explosiva do Bauer acolheu a resposta do Schwarz e encerrou a possível discussão.



V.

Dona Joana talvez fosse a única freguesa a quem Isidoro dispensava atenções especiais, arredando da mesa a cadeira para que ela sentasse, e substituindo a toalha de plástico, quando esta tivesse alguma nódoa. Era, seguramente, a frequentadora mais antiga da casa, velhinha chegada aos oitenta anos e marcada pelos achaques da idade. Viúva de um oficial do Exército desde os sessenta e cinco anos, andara sempre ocupada nas tarefas domésticas e pouco saía de casa. Pagava o preço do sedentarismo e da falta de exercícios físicos, pois nunca fizera ginástica nem praticara esportes. Outras setentonas como ela trajavam-se como jovens e exibiam flexibilidade e rapidez de movimentos. Dona Joana era uma senhora acabrunhada, a quem se daria espontaneamente o tratamento devido às muito idosas. E a Isidoro, ela fazia lembrar, não a mãe, que ele tinha perdido muito cedo, mas a avó paterna em Rio Grande, sempre curvada sobre costuras e bordados. Daí a amizade e as atenções que lhe dedicava.

- Como vão esses joelhos, dona Joana ?

- Vão mal, Dorinho.

Ela tinha descoberto que Isidoro, quando jovem, tinha o apelido de Dorinho, e adotou em relação ao “barman” a alcunha carinhosa.

A pergunta sobre os joelhos dava margem a uma longa explicação, com referência aos remédios que usava, à próxima consulta médica e à dificuldade que tinha para subir e descer escadas. Para atender às suas tarefas, Isidoro se obrigava a interromper o discurso lamentoso, voltando mais além para escutar a continuação das queixas.

Noutras ocasiões, uma indagação sobre a família provocava respostas longas e chorosas. A distância das filhas e a indiferença de que as acusava eram o grande trauma na vida de dona Joana. As duas tinham casado com militares e residiam em cidades distantes, uma no Rio de Janeiro e outra no Recife. Dona Joana tinha ficado sozinha em Porto Alegre, donde não se desligaria jamais. Pois aqui tinha apartamento próprio, assistência médica satisfatória e um devotado círculo de amigas. Daí que nem conhecia os netos de Pernambuco, a não ser por fotografias. Nunca fora visitada pelos meninos, nem os visitara. De resto, não estimava o pai deles, em quem censurava a conduta e um episódio de infidelidade conjugal, que a filha tinha perdoado, porém ela não. Seria ele um contraste flagrante como genro do Rio, este um coronel cheio de virtudes e talentos. Quanto às filhas (não gostaria de falar isso a estranhos), mas as considerava ingratas. Escreviam-lhe pouco, mandavam-lhe presentes sem valor, desinteressavam-se de sua saúde.

De tudo isso, Isidoro era informado com abundância de detalhes, pois aquele momento do almoço era o recreio diário da senhora, quando abandonava a rotina de sua casa e da televisão sempre ligada. Era também quando se informava das novidades do restaurante, dos problemas de Isidoro e de seu garçom Betão. Quando cessava o movimento dos almoços, Isidoro pedia licença e sentava-se à mesa de Dona Joana para uns minutos de prosa, acompanhando o cafezinho, que ambos tomavam.

V I.

Teodorico Moreira, que os amigos chamavam de Teo, e sua mulher Tininha, jantavam sempre no ABC. Nos meses de Inverno, apenas uma sopa; no Verão, alguma salada e um prato leve, pois os dois já tinham passado dos 50 anos e se acautelavam contra a obesidade. Teo fora jornalista de destaque num jornal do Interior, tinha vindo para a capital como assessor de imprensa de um político, e nunca mais saíra de Porto Alegre, abandonando definitivamente as atividades de jornal. “Jornalista chapa branca”, classificava-o o Gino Rossi, sempre maldoso, que frequentemente se sentava na mesa do casal para tomar seu chope com croquetes. Este fora colunista do Diário e outros veículos, e agora operava como radialista e eventual redator publicitário. Outro agente de publicidade, que apenas tivera transitória passagem pelas redações, era o Mendonça, que completava o elenco dessa mesa, conhecida no ABC como a “dos jornalistas”, embora nenhum deles conservasse atividade na imprensa diária. Às vezes integrava-se à turma algum colega ainda na ativa, mas era raro isso acontecer.

Gino explicava que as novas redações de jornal encerravam cedo, depois de horários espichados e não havia muita folga para frequentar bares. Relembrava, então, os seus plantões em horas tardias, à espera das transmissões do telex, que não se usa mais, por obsoleto. E começavam então as reminiscências, em que todos colaboravam. Inclusive, às vezes, a Tininha, que também era ligada ao ramo, pois fazia marketing eleitoral e era graduada em publicidade e propaganda. Mas eram Gino e o Teo quem mais contava histórias e aventuras, provocando alguma desconfiança no amigo Mendonça, que não tinha experiência maior em jornais. E isso o levava às vezes a provocações.

- O Gino conta muita vantagens da sua vida de colunista, mas a verdade é que também teve dissabores graves.

- Tu te referes àquele processo por difamação que um vereador promoveu contra mim? Aquele eu tirei de letra: fui absolvido já na primeira instância.

Não era aquele processo que Mendonça se referia. Era a um fato que Gino nem admitia recordar: os tapas que tinha levado de um leitor ofendido, na porta do Café Éden. Mas ninguém remexeu na memória desse episódio inconveniente, que ocorrera há uns quinze anos, e que só Mendonça conhecia, porque dele fora testemunha, numa noite chuvosa de Inverno e de escasso movimento na rua. Gino o escondeu com cautela, nem registrou a ocorrência na Polícia, e agora até negava que tivesse acontecido.

- O estilo que o Gino Rossi cultivava na sua coluna sempre daria margem a alguma contrariedade, - sentenciou o Teodorico. Ele era muito irônico, fazia alusões perigosas e aplicava umas “indiretas” que os bons entendedores identificavam a quem se destinava. Gino sorriu satisfeito, pois era uma de suas glórias ter sido conhecido como fofoqueiro e hábil intrigante.

- Que eu incomodava a tua assessoria, isso é verdade. Mas até que fiz poucos inimigos. E terminei me dando bem com quase todos os políticos. Infelizmente nunca arranjei uma boa mamata, como outros colegas conseguiram, para ter uma velhice tranquila e uma boa aposentadoria.

- É claro, meu amigo, as indiretas também machucam, - replicou o Teo, com sua antiga experiência de assessor de políticos. – Quem desfruta de uma coluna assinada de opinião, precisa de muito cuidado para não desagradar os homens do poder. Não se pode deixar subir a glória à cabeça e imaginar que se pode escrever tudo quanto se pensa. Isso só é possível quando se é o dono do jornal . O redator minhoca tem que ser sempre muito cauteloso. E abrir caminho para uma velhice segura.

- Como foi o teu caso, - completou Gino, com certa malícia.

- Mas, olha, meu amigo, não me arrependo de ter me tornado um “placa branca”, como vocês dizem. Tu ficaste com a fama de jornalista “independente, altivo, corajoso” e outros adjetivos generosos. Mas esses adjetivos não engordaram a tua conta bancária

- E eu continuei tua fã – acrescentou a Tininha, fazendo um carinho em Teo, entre sorrisos dos quatro amigos.

Das ironias de Gino não escapava o próprio Isidoro, dono do restaurante, quando participava do grupo. Como Isidoro procedia da cidade portuária de Rio Grande e tivesse pendores para a literatura, Gino lhe indagou se não pertencera aquele Grêmio Literário do qual era sócio honorário o Z.Zagallo, devotado secretário do Conde D’Abranhos e personagem de Eça de Queiroz. Na roda, todos conheciam a divertida obra de Eça, e o assunto rendeu uma sessão de caçoada com o “barman”, que não deixou de ir à réplica:

- Pode ter sido a intenção do Eça de fazer pilhéria com a minha terra natal, mas a boa verdade é que Rio Grande ficou sendo a única 12idade do Rio Grande do Sul mencionada na obra dele. Porto Alegre não mereceu essa honra. Nem a tua Santa Maria, Teo. Muito menos o “cafundó” onde nasceu o Gino.


VII.


A grande especialidade do Marítimo era contar histórias. Isidoro sabia o nome dele,, mas desde muito o designava pela categoria profissional, pois era assim que ele se apresentava e se exibia: um veterano da navegação, com quarenta anos de serviços em navios, aposentado pelo velho Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos. Mas não se imagine um clássico “lobo do mar”, de pele tostada pelo mar dos oceanos. De pele muito branca, e agora também de brancos cabelos, o Fábio apenas avermelhara o rosto, com a ajuda prestimosa da cerveja. Rigorosamente, ele só fora um “marítimo” pela classificação do Ministério do Trabalho e do seu instituto de aposentadoria. Não tinha frequentado os oceanos, apenas os rios e lagoas. Mecânico de barcos da navegação fluvial, tinha operado no Jacuí, no Taquari, no Caí. Depois, também no Guaíba e na Lagoa dos Patos, mas quase sempre no fundo escuro das “casas de máquinas”, nunca ao vento e ao sol da coberta superior dos navios. Consta que tinha sido um profissional hábil e competente, sempre valorizado pelos seus empregadores. Mas gostava muito de contar casos extraordinários, por vezes insinuando ao interlocutor sensacionais aventuras oceânicas, com naufrágios e tempestades imaginárias.

O delegado Adalberto, que às vezes o convidava para a mesa dos policiais, alterava-lhe o nome, de Fábio para Fabuloso, o que não incomodava o Marítimo, pois o delegado gozava da fama de espirituoso e brincalhão. Apenas uma vez a conversa dos dois se azedou, quando Fábio, narrando uma complicada viagem pelo Rio Taquari até Muçum em tempo de cheia, contou que tinha descido à terra, na altura do Pinheirinho, para ajudar os tripulantes a recolher uma carga de lenha, e se defrontara com uma onça.

- Como, seu Fábio, ali no Pinheirinho, perto de Encantado? – duvidou o delegado.

- Ali mesmo, ao norte de Roca Sales.

- Uma onça ali naquelas capoeiras ralas? - Uma onça, sim senhor, - insistiu o Marítimo. Rosnou para mim e arreganhou os dentes.

- Tenha paciência, Seu Fábio, eu conheço bem o Alto Taquari, trabalhei em Encantado e em Estrela. Toda aquela zona foi colonizada há muito tempo e as onças sumiram do mapa. Acho que o senhor viu o fantasma de alguma delas.

- Pô, doutor delegado, o senhor está duvidando da minha palavra? – espinhou-se o Marítimo.

- Não, meu amigo. Mas a gente se engana nos momentos de emoção e choque. O senhor foi surpreendido por algum dos animais da capoeira, como um mão-pelada ou um gato-do-mato e o tomou por uma onça. O Marítimo achou melhor recuar em sua narrativa. De fato, o bicho não era grande. Podia ser um gato-do-mato. E com uma cerveja a mais, a cena se pacificou.

Fábio gostava muito das conversas com o dono do restaurante, quando Isidoro lhe dispensava atenção. Conhecia bem o porto de Rio Grande, e as lembranças da terra natal de Isidoro excitavam-lhe a imaginação. Tinha frequentado aquele porto já no final de sua carreira, quando deixara a mesmice dos portos fluviais, em cidades pequenas onde nada acontecia. No porto marítimo tinha conhecido marinheiros de todo o mundo, frequentara as dançarinas da Mangacha, comprara novidades nos barcos estrangeiros. Voltava para Porto Alegre sempre com alguma cerveja alemã ou queijos da Holanda, artigos que então eram muito caros e difíceis de encontrar no Brasil.

Isidoro dava corda ao freguês e estimulava suas fantasias.

- Em Rio Grande o senhor não foi tentado pela navegação marítima?

- Muitas vezes. Tive convite para trabalhar num barco norte-americano, e um comandante argentino queria me levar a todo custo para o navio dele. Mas eu tinha família em Porto Alegre, estava bem empregado e não ia embarcar em aventuras.

Em geral, Fábio chegava sozinho ao ABC, e sozinho terminava suas duas cervejas e o peixe frito com cebolas que lhe servia de jantar.


VIII.


Os dois personagens bem trajados que às vezes apareciam para a refeição da noite nunca fizeram camaradagem com Isidoro, nem se deram a conhecer, Em geral vinham acompanhados pelas esposas, para jantares de peixe, regado a vinho branco. Provavelmente morassem na proximidade do ABC, em algum edifício de apartamentos, - era a suposição do “barman”. Mais adiante, o delegado Adalberto os identificou para Isidoro como juízes de direito, ambos antigos no foro e próximos de chegar ao Tribunal.

O delegado foi cumprimentar um deles, numa noite em que se encontraram, adiantando para Isidoro a informação crítica.

- Esse é o doutor Afonso, foi juiz de uma vara criminal, quando eu ainda estava na ativa. Juiz frouxo, do estilo “bonzinho”. Relaxava as prisões por qualquer defeito formal no auto de flagrante. E era difícil de decretar uma preventiva.

O outro, que Adalberto não conhecia, era juiz de vara cível. Ambos os magistrados tinham trabalhado juntos na mesma comarca, no interior do Estado, e conservavam desde então uma sólida amizade. Vizinhavam agora em Porto Alegre, as esposas e os filhos se relacionavam bem.

Embora estudiosos do Direito e aplicados a suas funções, não falavam em processos nem em questões jurídicas, quando no restaurante e na companhia de suas esposas. O que mais discutiam era o movimento do quadro da magistratura, quem seria promovido ou deixaria de sê-lo, as preterições, as más escolhas nas listas de promoção, e, naturalmente, as próprias possibilidades de ascensão.

- Tu tens tudo para entrar na próxima lista. Já tiveste cinco votos da última vez e tuas sentenças têm sido elogiadas, disse Hipólito, o juiz do cível.

- Isso não quer dizer muito. Lá pelas tantas aparece outro cara prestigiado, faz campanha, mobiliza apoios, e eles te esquecem. Chances iguais à minha tu também tens.

- Eu? Não tenho a mínima esperança. Depois que desatendi aquele pedido do Menotti, nunca mais tive um voto. Acho que ele fez campanha contra mim.

Não especificou o caso, porque o colega já o conhecia. Na fixação de uma pensão alimentícia em processo de divórcio, o desembargador Menotti se empenhara em favor de uma filha, atribuindo ao genro altíssimos rendimentos, que Hipólito entendeu não provados. Hipólito era do estilo durão; empenhos e pedidos fora dos autos, para ele tinham efeito negativo. Era, aliás, um juiz de aguda consciência profissional, empenhadíssimo no estudo dos seus processos e da teoria do Direito. Depois de desencantar-se da carreira judicial, projetava iniciar-se no magistério superior.

Já o seu amigo Afonso era de outro estilo. Sem grandes paixões pelo Direito, amava a boa literatura, caprichava em escrever com elegância, e suas sentenças, sempre elogiadas pelo estilo e originalidade, não se salientavam pela profundidade dos conceitos jurídicos. Mas o fato de escrever com elegância já lhe valera referências em acórdãos e citação em alegações finais de advogados. Até já fora mencionado em matérias jornalísticas, o que é absoluta raridade, poia é muito difícil que repórteres policiais tomem conhecimento de despachos e sentenças de juízes e que saibam avalia-las.

Entretanto, a conversa dos dois magistrados foi interrompida pelas esposas. e a de Hipólito externou o que seria um pensamento comum do casal:

- O meu marido só espera completar o tempo de serviço para pedir aposentadoria. Graças a Deus, aí vamos gozar um pouco a vida. Eu até nem quero que ele chegue ao Tribunal de Justiça.

Entretanto, o Betão já estava chegando com a panela fumegante da moqueca, e a conversa mudou de rumo.


IX.

A abordagem do Professor Maurício à doutora Leonor visava, em primeiro lugar, a uma consulta jurídica. Consulta fora do escritório, sem cobrança de honorários, pois o professor era parco de recursos. Porém antes de formular suas dúvidas, Maurício fez longa exposição sobre a frequência dele e dela ao restaurante, certa coincidência dos horários de lazer, e o respeito e simpatia que lhe despertavam uma profissional do Direito, com aparência tão séria. Ele deveria parecer um homem casmurro e antipático para os frequentadores do ABC. A vida e as contrariedades lhe tinham dado essa aparência amarga. Mas não era bem assim. Tinha suas próprias reservas de carinho em relação às pessoas que dele se aproximavam.

A bacharela, solteirona sem atrativos, salvo os da profissão e da prosperidade pessoal, era sensível à aproximação e à eventual corte de varões maduros, que lhe fizessem pensar num casamento ou em união estável. Ouviu Maurício com paciência e lhe abriu caminho para a consulta, mesmo sem pagamento de honorários. O que não era de seus hábitos.

Quando saíram juntos do restaurante, o professor ofereceu-se para acompanha-la até o prédio em que ela morava, o que Leonor aceitou sem vacilação. Companhias masculinas sempre a lisonjeavam, e era raro que acontecessem. Mas a pessoa do Maurício não lhe despertava muita confiança. Ele seria um aposentado por motivo de doença, estaria agora curado, e temia que o Estado lhe cassasse a aposentadoria. Isso o assustava muito, porque não se sentia em condições de retornar ao trabalho, estava desatualizado em seus conhecimentos e não tinha ânimo para uma reciclagem

A advogada perguntou se ele recebera alguma convocação da Secretaria de Educação, algum aviso ou alerta de que tal revogação pudesse acontecer. A resposta de Maurício foi negativa. Nada tinha recebido, o Estado continuava a pagar-lhe regularmente os proventos. Ele é que imaginava que, estando curado, seria convocado para o serviço ativo.

- Então, Professor, o senhor está fantasiando e imaginando problemas que não existem. Se o senhor receber alguma convocação, então venha falar comigo, e a gente examina a situação, à vista da legislação pertinente.

Tinham chegado a porta do edifício e ela tratou de despachar o consulente, já duvidando um pouco de sua sanidade mental. Na melhor hipótese, Maurício apenas inventara pretexto para uma aproximação e namoro, o que, para ela, não deixava de ser ideia sedutora. Mas resistiu à tentação de qualquer contato físico, e se despediu séria, sem sorrisos nem afagos. Deveria investigar quem era esse Professor Maurício, antes de admitir qualquer aproximação maior. Já tivera muitas decepções em seus relacionamentos de namoro, e até prejuízos materiais com simuladores e estelionatários.

No dia seguinte, curioso a respeito da inusitada conversa da advogada com o professor, Isidoro a questionou, direto:

- Como é, doutora, aquilo ontem foi um princípio de romance com o Professor ?

- Que nada, Seu Isidoro. Ele queria uma consulta de Direito Administrativo. Nada além disso.

Foi tudo quanto respondeu a advogada. E se fechou a outras indagações do “barman”, que ela passou a considerar um fofoqueiro.


X.

Isidoro não era um fofoqueiro. Até podia ser considerado um comerciante discreto, que media as palavras e moderava as perguntas que pudesse fazer aos clientes do restaurante. Mas a casa era pequena, os frequentadores mantinham certa regularidade e iam-se tornando quase íntimos dele. Figuras como Dona Joana eram como “móveis e utensílios” da Casa. E a bacharela Leonor, embora não fosse frequentadora diária, aparecia no restaurante pelo menos duas ou três vezes por semana, dando margem a sugestões de Isidoro quanto ao cardápio do dia, conselhos de culinária e eventuais piadas.

O Betão, empregado desde muitos anos, era devotado amigo de seu chefe. E fã incondicional. Se tivesse algum princípio de conversa com clientes antigos, contava-lhes histórias sobre a generosidade de Isidoro e suas qualidades morais.

- Homem correto e justo é esse aí! E olhe que a vida não foi fácil para ele. Teve dificuldades e muita contrariedade até hoje.

Interrompida a conversa para o garçom atender a outras mesas, ficava no ar o suspense quanto às contrariedades da vida de Isidoro.

Por vezes, o freguês se interessava e queria saber mais:

- Betão, falaste em dificuldades na vida do patrão, mas eu conheço ele há muitos anos, e sempre bem-sucedido.

- Ora, eu nem devia falar disso. Era questão de família. Ele casou mal, o casamento não durou muito e se separaram. Ela ficou com um filho do casal e vive explorando o pobre do Isidoro. Ele paga uma pensão alta, mas ela vive reclamando mais e inventando despesas extras.

Esse mesmo freguês pôde assistir, alguns dias depois, a um episódio de conflito de família. Isidoro ficou dez minutos no telefone, evidentemente irritado e por vezes elevando a voz.

- Bete, eu estou ocupado. A casa ainda está cheia, há fregueses reclamando atendimento, e tu aí com esse papo furado! Me telefona amanhã de manhã, e por favor, não me manda o guri aqui para me chantagear!

As visitas do filho de 14 anos eram, em geral, um expediente de Bete para comover Isidoro e levá-lo a concordar com doações extraordinárias, muito além da pensão pactuada no divórcio. O rapazinho, familiarmente chamado de Bebeto, era simpático, brincalhão, conversador, e sabia converter em urgentes necessidades o que não passava de extravagâncias, estimuladas pela mãe: compra de um novo celular, mais moderno, ou de uma coleção de videogames, excursão ao Rio com a turma do colégio para assistir a um torneio de vôlei-de-praia, matrícula num curso de jiu-jitsu e coisas desse gênero. Isidoro resistia o quanto podia, apelava para o bom senso do guri, lembrava-lhe as obrigações escolares mal cumpridas, mas muitas vezes transigia e fornecia as quantias pedidas. Embora soubesse que, em parte, iam servir aos caprichos da mãe, muito amiga de esnobismos e ostentações.

- É interessante isso, meu filho! – dizia Isidoro ao rapaz numa de suas visitas. – Tu só me procuras para pedir dinheiro. Quando eu te convido para ir ao futebol nos domingos, arranjas desculpas para não me acompanhar. A muito custo te levei para um passeio de barco no Guaíba. Não queres saber de churrasco com os meus amigos, e até já recusaste uma viagem para o Uruguai.

Isidoro sentia-se um pai frustrado. Tinha alimentado ilusões quanto à camaradagem com o filho, mas este caíra sob a completa influência da mãe, e desta, provavelmente só escutava censuras ao pai. Com o passar do tempo, Isidoro e Bete se odiavam.


XI.


O grupo que, entre segunda e sexta, se reunia na mesa 1, era irregular e heterogêneo. Alguém dissera a Isidoro que era de corretores de imóveis, pessoal da Imobiliária Vida Nova, satélites e dependentes. Sobressaía entre eles um gordo forte, referido como “despachante”, que aparentemente bebia demais, exaltava-se às vezes e elevava um vozeirão acima dos padrões da conveniência. Chamavam-no de Antenor e parecia ter alguma forma de liderança sobre os parceiros de mesa. Um destes era o Toninho, tipo esmirrado e fraco, em gritante contraste com Antenor. A camisa lhe sobrava nos ombros e no pescoço, como se fosse herdada de um dono mais robusto. Os dentes eram maus e escassos, apenas lhe sobrando os incisivos e os caninos. Tinha um jeito irônico de falar, e é possível que provocasse o companheiro de mesa com tiradas sarcásticas.

Pois foi com esse Toninho, que, certo dia, Antenor se irritou e começou a dizer impropérios, a que não faltaram palavrões pesados. Já tinha saído um “puta que pariu” a plenos pulmões, quando veio a ameaça final:

- Se tu não fosse um merda, aidético ou tuberculoso, eu te quebrava a cara, para aprenderes a me respeitar.

Toninho, encolhido, nada replicava. Já não havia então mais que três mesas ocupadas, pois passava das duas da tarde. Mas Isidoro se impacientou e mandou o garçom Betão advertir o freguês mal-educado. Infelizmente, a mesa dos policiais já não estava ocupada, para que o Comissário Aldrovando interviesse, como já tinha acontecido em outra ocasião.

Foi o próprio Betão que precisou intervir. E o fez delicadamente:

- Seu Antenor, me desculpe, mas o senhor está se excedendo. Faça o favor de moderar a voz e as palavras.

O valentão não gostou da intervenção do garçom e replicou:

- Fica na tua, garçom! Eu não sou guri, pra levar mijada de ninguém. Frequento há anos esta merda aqui, e não vai ser um pé-de-chinelo que vai me mandar calar a boca.

Incontinenti levantou-se com ânimo agressivo, e foi logo empunhando uma garrafa de cerveja, das muitas que havia sobre a mesa. Mas a antiga experiência de Betão como lutador foi mais eficaz. Com uma chave de braço, desarmou Antenor da garrafa que empunhara, e o arrastou até à porta da rua, sem encontrar resistência. Surpreso com a rapidez do golpe, Antenor se deixou levar, atemorizado pela força e a habilidade do antagonista. Já na rua, envergonhado, não cogitou de retornar, e desapareceu entre os transeuntes, pensando talvez numa desforra à mão armada. Isidoro ainda tentou aproximar-se dele e recuperar o cliente, que, sem uma providência de apaziguamento, talvez nunca mais voltasse ao restaurante. Mas foi inútil. Antenor fingiu que não ouvia seus chamados e sumiu na primeira porta que achou aberta.

A conta da cervejada ficou para o Toninho e o outro parceiro de mesa.


XII.


Os encontros do Professor Maurício com a bacharela Leonor se repetiram com frequência. Ele falava pouco. A maior parte dos diálogos pareciam monólogos, ela falando muito e ele a escutando embevecido. É claro que a vida profissional a lançara no âmago de muitos dramas, sobretudo questões familiares, em que ela, até alguns anos atrás, se especializava. Tinha um repertório de casos interessantes para contar. Mais recentemente, havia feito um curso de advocacia empresarial, um ramo mais rendoso da profissão, e se fixara na tarefa de dar assistência a organizações mercantis, que não lhe traziam as emoções de antes, mas, em compensação, engordavam a receita do escritório. Para o Professor Maurício, os mistérios da profissão de advogado assombravam. E a linguagem técnica da bacharela não facilitava as coisas. Desenvolta, ela falava em agravos e em embargos infringentes como se ele pudesse entendè-la, e os azares de um processo falimentar até podiam ganhar cores dramáticas.

Às vezes ela o encorajava a falar do seu ofício de professor, mas ele se esquivava, dizendo lhe que era uma tarefa rotineira e enfadonha, sempre a enfrentar a indisciplina dos alunos e a incompreensão das direções da escola e das orientadoras pedagógicas, ilustradas e cheias de teorias, mas distantes da dura realidade das salas de aula. Se falasse de suas experiências, não faria mais que um rosário de lamentações.

- Essa rapaziada de hoje em dia não conhece limites, não respeita nada. Vou lhe dar apenas um exemplo. Eu era novo, ainda caprichava na indumentária e tinha comprado um chapéu Panamá, que usava nos dias de sol forte. Durante a aula, pendurava o chapéu no cabide, ao lado do quadro negro. Pois não é que os bandidos dos alunos molharam papeizinhos na tinta e fizeram pontaria no meu chapéu com estilingues de borracha! No fim da aula, quando eu vi, o meu Panamá estava todo manchado de tinta preta.

Leonor não conseguiu conter o riso e ficou imaginando Maurício como um desses desastrados professores que não conseguem a simpatia dos adolescentes e se tornam alvo de brincadeiras maldosas. Ele completou sua história, relatando que não podia sentar em sua cadeira, sem antes verificar se não havia preguinhos ou percevejos sobre o assento. E houve ocasião de encontrar sobre a cadeira um excremento de cachorro.

- A direção da escola não reprimia esses abusos? – indagou Leonor.

- Quando eu reclamava providências, terminava sendo eu o culpado, por não conseguir domínio sobre a classe. E não faltavam colegas para inocentar os desordeiros, dizendo que em suas aulas não ocorriam tais atos de indisciplina.

Depois desses relatos, Maurício se mostrava deprimido. E houve ocasião de dizer à bacharela que muito cedo havia concluído que escolhera a profissão errada. Decididamente, jamais poderia ter abraçado essa docência de adolescentes. Talvez como professor de cursos superiores pudesse ser bem sucedido. Porém, de adolescentes ficara farto.

A princípio, os colóquios de Maurício e Leonor terminavam no Restaurante. Depois de algumas semanas, ele passou a acompanha-la sempre ao sair, o que causou alguma comoção entre os mexeriqueiros da mesa dos policiais. “Vejam só: a doutora já não vai sozinha para casa, nunca!”- foi o comentário do delegado Adalberto.

XIII.

O comissário Aldrovando não descansou enquanto não descobrisse os mistérios do Professor Maurício. Discretamente inquiriu gente do magistério, funcionários do Tesouro do Estado e da Secretaria de Educação, e até seguiu o Professor numa caminhada por diversas ruas, até que desaparecesse num corredor escuro da Voluntários da Pátria. O centenário sobrado abrigava o depósito de confecções de um palestino, onde certamente não era a moradia do investigado. Em outra ocasião, teve mais sorte e viu o professor entrar na sede de uma Sociedade Gnóstica do Rio Grande do Sul. Mas como não soubesse o que era “Gnóstica”, foi primeiro consultar uma Enciclopédia, para orientar-se. Mas ficou na mesma. A explicação dada pela Enciclopédia deixou-o em total confusão e na mesma perplexidade. Sua especialidade era mesmo descobrir falsários, estelionatários e ladrões vulgares. Não se meteria a investigar seitas religiosas, ainda mais quando remontavam às origens do cristianismo, conforme a Enciclopédia. Mas, afinal, da conversa com um funcionário da Saúde, resultou descobrir que Maurício fora aposentado por motivo de doença, ainda com pouco tempo de serviço, não sabendo, o informante, porqual moléstia fora o professor inativado.

Entretanto, não tardou em descobrir o motivo da precoce jubilação. O sigilo funcional não é muito respeitado entre os servidores públicos, e logo descobriu que Maurício fora afastado do serviço ativo porque tivera um surto esquizofrênico, agredindo um aluno em plena sala de aula e depois cuspindo atrevidamente na cara da diretora da escola.

Simplificando logo as coisas, o Comissário Aldrovando concluiu que Maurício era louco, ou se fizera de louco para conseguir uma aposentadoria precoce, estratagema comum entre os funcionários públicos. O faro policial sempre o fazia suspeitar da lisura de qualquer procedimento fora do comum, na área administrativa. Aposentadorias de gente jovem e sadia eram às vezes arranjadas através de simulação.

Mas, importante lhe pareceu prevenir a advogada Leonor. Não fosse a solteirona se enrabichar pelo esquizofrênico. Nos últimos tempos, jantava com ele frequentemente, e saíam juntos do restaurante. Para ela, quarentona e feia, embora endinheirada, Maurício, nos seus trinta e poucos anos, talvez fosse motivo de atração. E o comissário tinha o seu quê de Quixote para a prevenção de agravos e de crimes.

Esperou por um dia em que a advogada estivesse sozinha, pediu respeitosa licença para sentar à sua mesa, e, sem muitos rodeios, começou a sua advertência.

- A senhora deve saber que eu sou um policial veterano, tenho quase trinta anos de Polícia, e por isso adquiri o costume – talvez um mau costume! – de investigar o caráter e a personalidade de pessoas com quem eu tenha contato. É um vício de policial, talvez preocupação de prevenir acontecimentos lesivos, de descobrir inclinações para o crime, sei lá...

A bacharela já se indagava mentalmente a que vinha aquela exposição, quando o Comissário adiantou o assunto.

- Trata-se desse Professor Maurício, um tipo meio estranho, que há muito tempo frequenta aqui o restaurante, sem que ninguém soubesse nada a seu respeito. De uns tempos para cá, eu observei que ele se aproximou da senhora e lhe tem feito companhia.

- E daí – replicou a advogada, já em tom meio áspero. – O que é que o senhor tem com isso?

- Não, doutora, eu nada tenho com isso. Mas só quero lhe avisar que ele é louco, aposentado por louco. E receei que a senhora pudesse ser vítima de alguma violência. Ele teve um acesso de loucura no horário escolar, agrediu um aluno e a diretora da escola, e foi esse o motivo de sua aposentadoria.

A bacharela não se mostrou surpreendida, mesmo diante da intempestiva advertência de Aldrovando. Os fatos talvez já fossem do seu conhecimento. Mas nada disse nem comentou, como se estivesse preservando o sigilo profissional.

- Eu lhe agradeço a preocupação, mas estou bem informada sobre o caso e tive conhecimento do processo de aposentadoria desse cliente.

O Comissário pediu desculpas pela intromissão indevida e retirou-se para a sua mesa, onde já o esperava o delegado Adalberto.

- Mulheres ! – foi o seu único comentário. – Ninguém pode conhecer esses bichos.

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XIV.

A novidade daquela quarta-feira foi o reaparecimento do Antenor. Não para sentar-se à mesa onde ficavam seus companheiros habituais, mas para falar com Isidoro, desculpar-se pelo ocorrido na semana anterior e saldar o que estivesse devendo. Isidoro esclareceu que seus amigos haviam assumido a despesa, ele nada ficara devendo. Antenor justificou-se: tinha bebido demais, exaltava-se com facilidade e insultara o garçom, que era um excelente rapaz.

Estando já vazio o restaurante, foi boa ocasião para Antenor fazer o seu “mea culpa” e renovar seus periódicos propósitos de abandonar o álcool. Era um sujeito consciente da inconveniência do seu vício, até já fizera tratamento para livrar-se da dependência, sem obter resultado favorável. Isidoro estava habituado a suas promessas, que se renovavam mais ou menos de semestre em semestre, depois de algum fiasco maior ou de alguma esbórnia desastrada. E os amigos de bar conheciam de sobra esses episódios, narrados e glosados sem compaixão. Todos sabiam da seriedade de Antenor nos negócios, elogiavam sua habilidade no atendimento aos clientes, mas invariavelmente lamentavam suas recaídas no alcoolismo, que já o tinham prejudicado em várias ocasiões. A compulsão periódica pelo álcool, somada à inclinação para a violência, prejudicara seus negócios e até impedira que prosperasse. Uma pena! – todos os amigos lamentavam.

Mas entre as histórias que se contavam do Antenor, a mais hilariante talvez fosse a do seu revólver 38, joia de família, herdado do avô e muito gabado como maravilha de seu arsenal doméstico. Com repetidos assaltos de “trombadinhas”, a zona da Rua da Conceição e imediações do túnel tinha-se tornado uma das mais perigosas da periferia do Centro. O próprio Antenor, de físico avantajado, não intimidara os hábeis assaltantes de bolsas e carteiras. Por duas vezes, foi ele vítima desses assaltos-relâmpago, em que um guri mergulha a mão de súbito no bolso do descuidado e lhe subtrai a carteira, fugindo a seguir em carreira desabalada. Da segunda vez, desequilibrado ao segurar o braço do ladrão, Antenor caiu, machucou a perna e sofreu um rasgão na calça de casimira. Depois disso, jurou que se vingava e matava o assaltante, fosse ele quem fosse. Lubrificou e municiou o velho 38 que fora de seu avô e foi transitar a pé na área de perigo, desde a Coronel Vicente até o túnel da Conceição, depois das oito da noite. Mas, para tristeza dele, a rua estava tranquila como nunca, não havia ajuntamentos suspeitos, nem pedintes, achacadores, nada. Antenor desceu até à Avenida Mauá, correu riscos no trânsito conturbado daquela área da cidade, mas nenhum “trombadinha” desafiou sua disposição belicosa. Já pelas 9 horas, quando estava fechando o ABC, o vingador apareceu, queixando-se do insucesso e foi tomar um último conhaque. Não desanimou, entretanto. E, em noites repetidas, armou-se e reapareceu na roda do restaurante, antes de empreender sua caçada pela zona de perigo. Não sem antes atochar no bolso da calça um volume de papéis sem valor, para simular uma carteira recheada e atrair a atenção dos larápios.

Afinal, o esperado assalto, tão desejado, aconteceu. Num anoitecer chuvoso, quase na esquina da Mauá com a Coronel Vicente, um rapazote robusto lhe enfiou a mão no bolso, atraído pelo maço de papéis que avultava na calça. Colhido de surpresa, Antenor demorou a sacar seu revólver, perdeu de vista o assaltante, e, quando menos esperava, foi abordado por um policial-militar, que o interpelou a respeito do revólver. Antenor exibiu sua licença de porte de arma, argumentou que acabava de ser assaltado por um “trombadinha”, porém o policial foi intransigente. Estava acompanhado de um colega e ambos lhe explicaram que o “porte” não justificava o uso da arma em qualquer circunstância, ainda mais numa zona movimentada e cheia de transeuntes. Exigiram-lhe identificação, como princípio de conversa o desarmaram e terminaram por conduzi-lo à 1ª. Delegacia. Na repartição policial, o 38 do avô terminou apreendido e Antenor autuado por desacato, tais foram os desaforos que proferiu contra os brigadianos. Obrigou-se a pagar fiança para evitar a prisão.

Na roda do ABC, a gozação dos amigos foi impiedosa, quando souberam do acontecido.


XV.

Na mesa que era conhecida como a “dos jornalistas”, Gino Rossi apareceu muito eufórico, pois tinha planejado e ia lançar em breve uma revista cultural. Entendia que iria preencher um vazio na cidade, que há muito tempo não possuía uma revista de bom conteúdo, com colaboradores selecionados e acolhendo escritores de variados ramos e de diversas tendências. Ainda não escolhera um nome para a publicação e pedia sugestões.

Teodorico Moreira, que era um eterno pessimista quanto à edição de novos órgãos de imprensa em Porto Alegre, não mostrou entusiasmo com a ideia.

- Quem vai te financiar essa empreitada? Editar uma revista sai caro.

- Eu estou concebendo uma grande campanha de assinaturas. E tenho muita gente apoiando a minha ideia. Os escritores locais não têm onde publicar seus escritos e já conto com grandes colaboradores, que não vão me cobrar nada pelas suas matérias. Ninguém quer escrever para deixar escritos inéditos. Muitos nem se preocupam em ganhar dinheiro com literatura. O principal para eles é aparecer em letra de forma e ser comentado pelo público.

- Mas esses, seguramente, não são os melhores. Terminas oferecendo ao leitor um time B. E a remuneração dos autores não é a despesa maior de uma revista. O maior problema é a Gráfica. Sem um bom capital não se suporta a despesa periódica da digitação, diagramação e impressão da matéria.

Mas o Gino Rossi era um otimista irredutível e não deixava objeção sem resposta.

- Não penses que eu estou planejando uma revista cara. Não vai ser diária nem semanal, vai ser mensal. Pensei até no nome de “Mensário Cultural “. Que é que vocês acham?

A Tininha pediu licença para discordar. Achava um nome antipático, que não comunicava. Lembrou algo que se referisse ao gaúcho, ao pampa, à tradição campeira.

- Mas a revista não vai ser tradicionalista nem gauchesca. É revista urbana, para leitores urbanos.

Fizeram-lhe então várias sugestões, como “Revista do Sul”, “Portinho do Guaíba”, “Letras e Ciências”, “Paralelo 30”. Mas não houve consenso em relação a qualquer desses títulos, e Gino resolveu adiar a escolha do nome. Até porque seria preciso engrossar a campanha de assinaturas, depois de editar um número Zero, que poderia aumentar os atrativos da publicação.

- E estuda bem a questão financeira! - aconselhou o Teo, que considerava um disparate a audaciosa iniciativa de Gino Rossi.

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XVI.

Os amores do Dr. Urbano com sua secretária Marly continuavam tranquilos, embora o médico não fosse muito cauteloso no disfarçar seu adultério. Jantavam juntos com frequência e embora não fizessem exibições de carinho, os outros fregueses habituais da casa já tinham percebido que se tratava de relação clandestina entre o médico e sua secretária. Ele era bastante conhecido, tinha clientela numerosa, e a diferença de idade entre os dois sugeria algo fora dos padrões. A juventude e os dotes físicos da “alemãzinha” indicavam-lhe um namorado mais novo. Os quase vinte anos de diferença logo faziam pensar em sedução pela conta bancária, pelo nível de renda ou pelo “status”. Os antigos frequentadores do restaurante, que a tinham conhecido ainda namorando um galã jovem e atlético, logo tiraram suas conclusões.

Mas a falta de cautela dos dois amantes tinha que levar a surpresas desagradáveis. Certa tarde de verão, entrou subitamente no salão o filho mais velho do médico, rapaz de seus dezesseis anos, e foi sentar-se, sem prévio convite, na mesa do pai, ali começando uma interpelação agressiva, que foi crescendo de tom à medida que avançava, aponto de ser escutada nas mesas próximas. Mesmo que a mãe não tivesse denunciado a relação do pai com a secretária Marly, que fingia desconhecer, o jovem tinha desconfiado do que estava acontecendo, fizera por conta própria a sua investigação, e resolvera, naquela tarde, desmascarar o pai e sua namorada

A indignação dos dezesseis anos ignora conveniências, cerimônias e respeito reverencial. O pai, que o rapaz admirava e respeitava, subitamente se despia de todos os predicados, para lhe aparecer como um velho “panaca”, que estava sendo explorado por mulher nova e esperta. O homem de 50 anos, ainda na posse de todas as forças, parecia, aos olhos do guri de 16, um velho que estivesse à beira da impotência sexual, e incapaz de inspirar outra paixão que não fosse cobiça por dinheiro.

O comissário Aldrovando e o inspetor Jesuíno, em mesa próxima, ficaram atentos, com receio de uma luta corporal entre pai e filho. Porque as vozes dos dois subiram de volume, o rapaz já apelava para o baixo calão, tinha chamado Marly de “vadia”, e o médico o advertira de que a respeitasse.

- Respeitar quem? Essa mulher que está traindo a minha mãe e explorando o meu pai?

Urbano ainda procurava manter a voz em tom menor, embora estivesse visivelmente irritado. Seu filho, obviamente, procurava causar escândalo, sem nenhuma preocupação de ser discreto. O que pretendia mesmo era desacreditar a amante do pai, que se mantinha calada e pálida, incapaz de qualquer reação.

Já com toda a freguesia da casa atenta à voz alterada do adolescente, o Dr. Urbano resolveu retirar-se do restaurante, levando consigo a Marly e o jovem. Mas um ato final estava reservado para a despedida, na soleira da porta. Quando o médico pretendeu que o filho os acompanhasse, segurando-o pelo cotovelo, ele se despediu com um repelão, exclamando:

- Podem ir vocês dois. Eu não ando com puta na rua.

O Dr. Urbano se evaporou o mais ligeiro que pôde. E durante muito tempo não foi visto no ABC. Nem ele, nem sua namorada.

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XVII.

A advogada Leonor desapareceu do restaurante por mais de um mês, o que já causava alguma apreensão a Isidoro e a Betão, acostumados à sua frequência habitual. E, com mais forte razão, ao Professor Maurício. Este não escondia a sua angústia, e, mais de uma vez, indagou de Isidoro informações sobre a bacharela.

- Coisas da profissão, professor. A doutora deve estar em Brasília, com algum recurso no Supremo.

E não evitava uma provocação ao namorado aflito:

- Casou-se e não nos convidou para a festa.

- Ou arranjou algum parceiro e foi fazer turismo em Buenos Aires...

Em face desses últimos alvitres, o Professor ficava perturbado, ria um riso sem graça e mudava de assunto.

Até uma sexta-feira sombria e chuvosa em que apareceu a bacharela com um visual novo, ainda convalescendo de uma plástica de face. Redução da protuberância nasal, eliminação dos “pés-de-galinha” ao redor das órbitas e severo alisamento do mento e das maçãs do rosto, tinham dado à solteirona uma nova aparência. Não que a tornassem uma beldade irreconhecível, mas talvez a livrassem da bateria dos “canhões do Foro” em que a tinha alistado o delegado Adalberto, sempre inclinado às zombarias pesadas.

A advogada não evitou o desapontamento por não encontrar no ABC o Professor Maurício. Tinha imaginado a surpresa que iria causar com sua nova aparência e a carinhosa recepção que teria. Interrompera atividades, se hospitalizara, gastara bom dinheiro com o cirurgião plástico, à espera daquele momento mágico. Mas teve que se contentar com os discretos elogios de Isidoro e os olhares de curiosidade dos fregueses habituais da casa. Cirurgias esteticistas suscitam risonhas esperanças nas pacientes, mas nem sempre produzem o efeito esperado entre o público-alvo.

O inspetor Jesuíno segredou para o Comissário Aldrovando:

- Cuida só a reforma que a advogada fez na cara. Vai ter até que renovar a carteira de identidade e o passaporte!

Na mesa dos magistrados e suas esposas, presentes àquela noite, a repercussão foi menor. Mas cirurgias não ficaram sem registro:

- Parece que aquela dama da mesa dos fundos andou reformando a cara.

- De fato – observou a companheira de mesa -, ela está bem diferente. Será que não é uma irmã ou parenta?

- Não, é a própria advogada. O Hipólito a conhece do Foro. Não é, Hipólito?

O juiz, que estava distraído na conversa com o colega e não tinha visto entrar a bacharela, esticou o olhar para a mesa dos fundos e confirmou:

- Parece ela, a doutora Leonor, que eu não via há bastante tempo. Decerto estava hospitalizada para a cirurgia, porque a transformação foi grande.

- Sem muita vantagem – acrescentou, maldosamente, a esposa.

Leonor suportou a solidão durante algum tempo, mas não se conteve de indagar do garçom se o Professor Maurício estaria frequentando o Restaurante. Betão se fez de desinformado, pensou para responder que o vira na semana passada, se não estava enganado.

Desanimada e um tanto melancólica, a bacharela terminou sua sopa de legumes e a sobremesa de gelatina, pagou a conta e retirou-se.

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XVIII.

O carteiro da área costumava aparecer pelas duas da tarde, num momento em que já tinha amainado o movimento dos almoços. O volume de correspondência nunca era dos maiores. Quase se limitava a avisos de bancos, faturas, algum prospecto de propaganda. Mas, naquela tarde, entre os envelopes que o funcionário dos Correios entregou a Isidoro, avultava uma sobrecarta grande, de cor marrom, com endereçamento manuscrito e caprichosa caligrafia. No verso, indicava-se como remetente Maurício Garcia de Souza, com endereço ilegível e um número de CEP rabiscado e de difícil leitura.

Sem se aperceber de que a inesperada correspondência procedia do Professor Maurício, antigo freguês da casa, Isidoro pôs-se a ler a longa carta. De três densas páginas de letra cursiva em tinta preta:

“Meu caro amigo Isidoro: À hora em que você ler esta missiva, eu já terei deixado de existir, pois o cianeto é de ação rápida e fulminante, minha resolução foi tomada e não incorro em vacilações. Aliás, é provável que a notícia do meu suicídio já tenha chegado até você, embora os jornais não noticiem estes gestos extremos, que não são de covardia, mas de coragem. Coragem é o que nunca me faltou na vida. Desde jovem fui perseguido pela má sorte, incompreensão e a crueldade alheias. Mesmo os meus pais nunca tiveram noção de seus deveres. Meu pai me castigava em demasia e minha mãe não me defendia, pois tinha preferência pelo filho mais velho. Pretendi estudar Engenharia, mas não passei no vestibular e tive que me contentar com o curso de Matemática, encalhando nessa desgraçada carreira de professor, na qual terminei aposentado, sob a falsa alegação de doença mental. Não tive mulheres, não tive amor. Passei dos trinta e cinco anos, sem ter sequer uma namorada. Até vir a conhecer no seu restaurante a doutora Leonor, que me deu atenção, orientação jurídica, e até algum carinho. Alimentei a ilusão de que ela gostasse de mim. Mas, de súbito, a mulher me abandona, desaparece sem explicações, deixa o apartamento em que morava, não me dá ao menos um telefonema. Dizem-me que foi viajar com um companheiro. Maldição! Decididamente, não vale a pena viver. Vou acabar com a vida hoje mesmo. Isto é uma despedida para uma pessoa (rara) que sempre me dispensou consideração. Dê lembranças ao Betão, que era gentil com a freguesia. Creio que ninguém vai perguntar por mim, porque não tenho amigos, os parentes me desprezaram e minha mãe já morreu. E se por acaso alguém perguntar, informe desta minha resolução, que é inabalável. Atenciosamente, Maurício Garcia de Souza”.

Contristado, Isidoro guardou a carta e o envelope, pensando que deveria entregar o documento à Polícia. Nunca tinha enfrentado esse tipo de problema. E desde logo arrependeu-se das brincadeiras que fizera a propósito do sumiço da doutora Leonor.

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XIX.

Logo depois do Natal, Porto Alegre já começa a esvaziar-se. O costume secular de trocar a cidade por uma das praias de mar converte a capital gaúcha em deserto nos meses de verão, especialmente nos finais de semana. O hábito, que no passado era apenas da burguesia, tornou-se de uso generalizado, graças à popularização do automóvel e à própria melhoria dos padrões de vida. Nos meses de janeiro e fevereiro, a população de Cidreira explode, Tramandaí se multiplica, Xangri-lá e Atlântida se tornam metrópoles, Capão da Canoa derrama povo pelas beiradas, Torres triplica seus habitantes. Até as pequenas prainhas, de Quintão à Rondinha se enchem de moradores transitórios e multiplicam os automóveis em trânsito. Calcula-se que 1 milhão de gaúchos se deslocam para a beira do oceano, embora os maltratem o excesso de areias, o vento Nordeste e os rigores de um mar, gelado muitas vezes, e frequentemente poluído. Entre o Mampituba e o Chuí, descontados os panoramas atraentes de Torres, não há doçuras nem amenidades.

Antes do começo das aulas e do Carnaval, forasteiro que chegue à cidade num sábado imagina estar desembarcando em cidade morta. Os bares fecham cedo por falta de clientes, se é que não concederam férias coletivas aos empregados. Já conhecedor dos costumes da cidade, Isidoro adotou o sistema de fechar o Restaurante ABC nos 30 dias que antecedem o Carnaval, dando férias coletivas para o Betão, a cozinheira e sua auxiliar. Ele mesmo aproveita para um descanso, geralmente em Santa Catarina, cujas praias deslumbram os gaúchos.

Desta vez, levou consigo o filho, Bebeto, e se instalou num hotel de Garopaba. O rapaz estava feliz da vida, gostando muito do programa. Mas a mãe não se desligava dele e se incumbiu de estragar o veraneio de Isidoro. Telefonava todos os dias, com intermináveis ligações, queria informar-se de tudo sobre a saúde do rapaz e até das roupas que ele estava usando. Mandava comprar remédios, indagava da alimentação e insistia pelo pronto retorno, alegando saudades invencíveis. Depois de sete telefonemas desses, Isidoro perdeu a paciência, mudou-se para um balneário escondido e rústico, onde as ligações telefônicas eram impossíveis. Bebeto gostou da solução, especialmente porque aí arranjou uma namoradinha que lhe fez esquecer todas as recomendações da Mamãe e o iniciou nas virtudes de uma prancha de “bodyboard”. Não tardou que a insuportável Bete fizesse queixa ao juiz de família pelo suposto sequestro de Bebeto e descumprimento do acordo da separação, mas antes de qualquer trâmite judicial, pai e filho estavam de volta a Porto Alegre, para sossego da mãe ansiosa.

Depois desse veraneio em Santa Catarina, pareceu a Isidoro que conquistara a amizade do rapaz, antes muito dominado pelos caprichos da mãe. Ele passou a visita-lo com mais frequência e a aceitar seus convites para passeios e diversões.

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XX.

A reabertura do ABC em fevereiro foi ocasião de os frequentadores conferirem os diversos destinos e programas daquele interregno. O Verão sempre os distanciava e os fazia tomar rumos diferentes, fora de suas rotinas. A volta era ocasião de aproximá-los com manifestações de cordialidade e apreço.

Foi o caso de Fábio, o Marítimo, que apostou num pacote de viagem turística, em ônibus, até o Nordeste brasileiro, e voltou cheio de histórias para contar. Seus interlocutores preferidos eram o delegado Adalberto e seus amigos policiais, mas também Isidoro e Betão tinham de ouvir-lhe as narrativas, sempre temperadas por alguma aventura surpreendente. A primeira já tinha acontecido no início da excursão, em Laguna, quando uma viúva, também viajante solitária, empolgou-se com as histórias de navegação que ele lhe fez num passeio à Barra, e esteve a pique de ser atraída para intimidades. Mas o Marítimo tinha resistido, não ia ser bobo de se comprometer logo na primeira noite de viagem.

- E era bonita a viúva? – quis saber o delegado.

- Média - respondeu o Marítimo. Mas era mulher de sessenta e poucos anos, de boa saúde e bons perfumes. Fizemos camaradagem até o fim da viagem, até que lá em Recife, na praia da Boa Viagem... Mas isso é outra história.

A narrativa interrompida deixou em suspenso os ouvintes. Mas o Marítimo logo quebrou o gelo com outra aventura, desta vez em Curitiba, quando teve que “dar uma de policial” e intervir contra um ladrãozinho que ia roubando a bolsa de uma das companheiras de viagem. O tipo já tinha arrebatado a bolsa e atravessava a rua, quando Fábio o derrubou com uma rasteira e recuperou o objeto.

- imaginem que a mulher levava na bolsa todo o dinheiro para a viagem, cartões de crédito, talões de cheque, recibos, sei lá o que mais. O marido estava junto, mas não se mexeu, nem me ajudou a dominar o rapaz. Depois, ficamos bons amigos e o casal muito agradecido pela minha atuação.

- E o “trombadinha” estava sozinho? – perguntou o policial. Em geral eles atuam em grupo e socorrem o companheiro vencido. O senhor cometeu uma imprudência.

- Não. Eles não ajudaram o ladrão. Era uma turma de moleques, que ficaram me xingando e me ameaçando do outro lado da rua. Possivelmente eles viram que eu não estava sozinho, pois todo o grupo da excursão vinha atrás de mim. O guri se levantou correndo e fugiu sem ser preso.

Afora as narrativas turísticas do Marítimo, a novidade maior na reabertura do Restaurante ABC foi o acidente com Dona Joana. Atropelada por um ciclista, ela sofreu fratura no pulso, o que a obrigou a andar engessada durante várias semanas. Naturalmente, quase todos os fregueses do almoço se interessaram pelo ocorrido, iam olhar o braço lesado e indagar os pormenores do caso. Centro das atenções, a senhora sentia-se valorizada e gostava de fazer um relato minucioso sobre a bicicleta criminosa, o ciclista, sua desatenção e sua grosseria, e, por outro lado, os cuidados recebidos no Pronto Socorro, a eficiência dos médicos e enfermeiros. Tudo rendeu longas exposições, a velhinha se sentiu dona do mundo durante vários dias, enquanto sua lesão não se tornou uma das rotinas do restaurante. Havia também um complemento para abrilhantar seus relatos: os exames clínicos tinham sido ótimos. Mesmo com o acidente, a pressão arterial não se havia alterado, o colesterol e a glicose estavam normais. Dona Joana sentiu-se até fortalecida, tanto que tinha resolvido não informar nada às filhas, para que não se abalassem desde longe com preocupações infundadas.

No fim das férias coletivas, também reapareceu a advogada Leonor, bronzeada pela temporada praiana, de ares muito saudáveis, apesar da melancólica lembrança do Mauricio. Certa noite, estando ela sozinha em sua mesa, como em geral acontecia, Isidoro pediu licença para acompanha-la e abordou com muitas cautelas o assunto do namorado suicida.

- A senhora me desculpe a intromissão num caso tão delicado, e que não me diz respeito. Mas sem que eu desejasse, fui envolvido no assunto e até me tornei destinatário de um documento importante, talvez a última declaração do Maurício. Desde o início eu acompanhei a aproximação que se deu entre ele e a senhora, aproximação que ele, pelo menos, interpretou como um namoro. É o que a carta dele dá a entender, talvez como resultado de uma suposição paranoica.

- - O senhor está se referindo ao caso do meu cliente Maurício Garcia de Souza ? – indagou a bacharela em tom solene. – Esse cidadão me procurou na condição de advogada, fazendo-me uma consulta, e disso resultou que tivéssemos conversado algumas vezes. Mas o Maurício era esquizofrênico e criou fantasias inteiramente infundadas. Isso o levou, pelo que parece, a um desfecho trágico.

Isidoro abriu o envelope em que guardara a cópia da carta-despedida de Maurício (o original precisara entregar à Polícia para instruir o inquérito do suicídio) e a estendeu à Dra. Leonor para que a lesse e a guardasse consigo, se quisesse.

Não foi sem alguma emoção que a solteirona leu aquela declaração de amor desesperado. Ficou pálida, tremeu-lhe o lábio inferior, e uma lágrima incontrolável correu-lhe pelo rosto.

- É triste, muito triste, Seu Isidoro. Veja a que ponto pode chegar um psicótico. Eu, de fato, nem cheguei a conhecê-lo bem. Estive hospitalizada, me submeti a cirurgias, até me desliguei temporariamente do escritório. Só agora fui encontrar, na caixa do Correio, várias cartas dele, nesse mesmo tom desvairado da que ele lhe enviou.

Leonor guardou consigo a cópia da carta. Apesar da loucura do Maurício, o documento não deixava de ser relíquia pessoal significativa.

Outro acontecimento importante durante as férias coletivas do ABC foi o casamento do garçom Betão. Ele vivia havia muitos anos com a sua Dorinha, tinha com ela duas filhas, mas nunca tinha querido regularizar a ligação. Ela se queixava disso, lamentava-se de que continuava uma “amasiada” e “mãe solteira”, inibida nas ocasiões em que precisava declarar o estado civil. Mas, desde algum tempo, tinha começado a frequentar uma dessas novas igrejas evangélicas, onde pesava desfavoravelmente a sua condição. E tanto insistiu que Betão terminou por ceder às instâncias da mulher. Casaram-se no cartório e na igreja que lhes pareceu menos exigente em termos financeiros. O garçom era descrente e não estava disposto a submeter-se ao pagamento de dízimos inesgotáveis. No fim das férias, anunciou ao seu patrão e compadre Isidoro que mudara de estado civil, o que lhe valeu uma reprimenda.

- Então tu casas com a comadre e nem avisas os amigos, nem convidas o teu chefe para padrinho? Eu até pagaria a despesa da festa! Que barbaridade! Se a noiva não tivesse cinquenta anos, a gente iria pensar que foi casamento na Polícia, para evitar processo por sedução.

- Ora, patrão. Casamento a essa altura da vida até é uma vergonha. Eu, com 62 e ela com 51, vinte anos de ajuntamento e duas filhas, não é coisa para fazer exibição. Foi melhor assim, meio clandestino. Mas, no domingo que vem, vamos fazer um almoço lá em casa para comemorar.

- Assim fica melhor, respondeu Isidoro. E eu quero no cardápio aquela galinha-ao-molho-pardo, que a comadre sabe fazer muito bem.

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XXI.

Depois da altercação em altas vozes com o filho adolescente, o Doutor Urbano levou meses sem frequentar o ABC. Nele, nem a sua secretária Marly, que aparentemente desapareceu de sua vida amorosa, a relação conjugal logo adiante se complicou. Sob a pressão moral dos filhos, a esposa o deixou e partiu para o divórcio. O capítulo seguinte foi a estipulação de uma graúda pensão alimentícia em favor da mulher e dos filhos do casal, o que comprometeu seriamente a saúde financeira do médico. Marly logo sentiu os efeitos dessa virada e tratou de bater asas em busca de melhor destino. Despediu-se, arranjou outro emprego lá para os lados do Moinhos de Vento e cortou as relações com Urbano.

O médico apareceu no restaurante em uma noite de setembro, desacompanhado, apenas para tomar a sopa de legumes, que, em tempos de frio, era um atrativo da casa. Não pediu vinho nem aperitivo, contentou-se com água mineral. Os frequentadores do restaurante, mesmo sem nada saber do seu drama doméstico, acharam-no desfigurado e envelhecido.

Na mesa dos policiais, o comentário foi inevitável:

- E a loira boa do doutor? – indagou Jesuíno ao comissário Aldrovando.

- Nunca mais vi. E agora ele aparece solitário. É sinal de que se afastaram, - respondeu o comissário.

Isidoro ficou satisfeito com o reaparecimento de um bom freguês e comentou com Betão: - Olha só, o doutor voltou ao ABC!

- Mas desacompanhado da secretária. Alguma coisa deve ter acontecido.

Na mesa em que confraternizavam os magistrados, havia mais informação, pois os autos do divórcio de Urbano tinham transitado pelo Dr. Hipólito. E mesmo no tropel da atividade forense, ele tinha associado o divorciando com o médico frequentador do ABC em companhia de uma bonita secretária.

- Ele está divorciado. Mas, pelo jeito, terminou sozinho... Está com fisionomia abatida.

Afonso, o outro juiz, permitiu-se uma piada maldosa:

- E a fixação dos alimentos, na tua sentença, deve ter parte nisso.

- Não me lembro em quanto foi fixada, mas deve ter sido alta. Se não me engano, eram dois ou três filhos adolescentes, cursando escolas particulares. Mais a esposa, sem rendimentos próprios e padrão de classe média.

Nem podia ser outro o desfecho da novela. A pensão alimentícia levava quase a metade da renda líquida de Urbano. Os filhos, muito afeiçoados a mãe, o hostilizavam. A amante se evaporara. Restava-lhe batalhar na profissão e tentar a sorte no turfe, que continuava sendo a sua paixão. Mas mesmo o turfe tinha perdido atrativos, o hipódromo abrindo apenas uma vez por semana, as apostas feitas à distância, por via eletrônica, voltadas a carreiras de São Paulo ou do Rio.

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XXII.

Além dos fregueses habituais, havia, sobretudo nos almoços, uma rotatividade acentuada, gente que aparecia para uma refeição rápida e nunca mais voltava, grupos que eventualmente se reuniam para a celebração de um negócio, advogados com algum cliente seleto, amigos rio-grandinos de Isidoro que procuravam o restaurante do conterrâneo. Mas havia às vezes o processo de criação de um novo “freguês de caderno”, como os chamava o Betão.

Foi este o caso de um sessentão esguio, que começou a aparecer com frequência, revelou que apreciava o bom serviço da casa, mas se mostrava exigente e até cacete em várias ocasiões. Vinha sempre desacompanhado e logo foi identificado como um solteirão impenitente, que, embora remunerado com alto salário, fugia de compromissos matrimoniais. Na mesa dos policiais ele era conhecido e cumprimentado com efusão, embora nunca aceitasse acompanhá-los.

- Esse é um dos marajás do Estado! – comentava o delegado Adalberto. É assessor na Assembleia, com uns vinte anos de serviço e várias efegês incorporadas.

- Assessor de quê? – perguntou um dos parceiros de mesa.

- Ora, é outro “ascone”, assessor de coisa nenhuma, como tantos. No tempo em que eu estive cedido à Assembleia, nós nos encontrávamos por lá. É um cara assediado pelas mulheres, porque é solteiro e ganha muito bem. Mas nunca se amarra em mulher nenhuma.

O inspetor adiantou que ouvira dizer que ele era veado. Mas Adalberto ponderou que isso devia ser fofoca de mulheres despeitadas. ---“Ele enrolou várias em namoros compridos e depois desaparecia. Vocês vão ver que qualquer dia ele chega aqui com uma mulher gostosa”.

Na verdade, o assessor Eloy Schmidt era um cacete dos maiores, e disso logo se inteirou o garçom Betão, quando começou a sofrer com as suas impertinências de reclamador e maníaco. Os filés com ovo, que pedia habitualmente, deviam ser “bem passados”, quase secos. A primeira vez que o garçom lhe trouxe um “ao ponto”, como era habitual na casa, Eloy o devolveu à cozinha com reclamações, e tornou a devolvê-lo depois, porque achou ainda uns laivos de vermelho ao cortar o centro do bife.

- Garçom, peça à cozinheira que frite melhor este filé, porque eu detesto sangue.

Já quando se tratava de massas, talharim ou macarrão, Eloy as queria “al dente”, quase mal cozidas. O molho, farto e bem aquecido, é que deveria amaciá-las. Quase não havia refeição sem devolução de pratos à cozinha. E mesmo as opções de peixe, que eram a especialidade do restaurante de Isidoro, sofriam as restrições de Eloy.

- Isto não é linguado, Seu Beto, deve ser pescada.

Betão ia chamar o patrão, que confirmava a qualidade do peixe e se dispunha a levar o cliente até á despensa para comprovar que não comprava pescada, nem cação, ou outro qualquer peixe de qualidade duvidosa. Depois de ouvir muita argumentação, Eloy se dava por convencido e elogiava a cozinha da casa, mas não deixava de proclamar a sua própria competência em matéria de culinária de peixes, carnes e legumes.

Só não aceitava e não consumia alimentos crus, como tomates, alfaces e verdes em geral. Saladas eram banidas do seu menu, porque temia a contaminação por micróbios e suspeitava da higiene das cozinhas de todos os restaurantes.

Depois de algum tempo de convívio e de conhecer melhor o “doutor Eloy” (todos os clientes bem trajados e com ar respeitável, Betão tratava por doutores), o garçom comentava com o patrão: “Por isso é que esse cara ficou solteirão. Não há mulher que aguente um sujeito assim”.

Na verdade, havia quem o aguentasse, pelo menos durante algum tempo. Eloy apareceu acompanhado de uma bela jovem de seus vinte anos, com mais aparência de filha do que de namorada. Mas ele fazia carinhos ostensivos, segurava-lhe as mãos sobre a mesa e ciciava segredinhos, que ela retribuía com algum constrangimento. O casalzinho não repetiu muitas vezes sua presença. Eloy passou a vir desacompanhado.

O delegado Adalberto, não resistindo à curiosidade, indagou-lhe:

- Doutor Eloy, e aquela moça bonita que andava em sua companhia?

- Aquela já dançou. Eu arranjo gurias bonitas, gasto algum troco com elas, mas não me amarro.

Esse diálogo foi de pé, ao lado da mesa dos policiais, pois Eloy insistia em ocupar mesa solitária. Depois dos risos de conveniência, quando o tipo se afastou, veio o comentário de Adalberto:

- É um arrogante e cínico esse cara. Onde é que se viu essa desfaçatez?! A guria até podia ser parenta ou amiga de algum de nós. Deve ser alguma estagiária lá da Assembleia, sujeita à chefia dele. Dessas, ele se considera proprietário...

Entrementes, lá na mesa distante, Eloy encomendava a Betão o seu filé estorricado, com ovo frito e purê de batatas.

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XXII.

O entusiasmo era visível na mesa de Teodorico e Tininha, acrescida, àquele dia, pelo Gino, o Mendonça e mais um casal que viera na companhia de Gino Rossi, todos comemorando o aparecimento do número 1 da “Aurora Cultural”, a revista lançada sob a direção do Gino. Este trazia consigo um pacote de exemplares recém saídos da tipografia, ofereceu um ao Teo, outro ao Mendonça e reservou um terceiro para Isidoro, que ele sabia ser apreciador de literatura.

Gino sempre temia as apreciações críticas do Teo e as suas considerações pessimistas, mas, desta vez o amigo foi simpático e generoso, elogiou a boa apresentação gráfica, apenas dizendo que a revista estava “fininha” para ser um número 1 e acentuou a necessidade de conseguir mais anunciantes.

- Bem, desta vez eu consegui editar um número de 40 páginas. Pode ser que ela cresça nas edições posteriores.

Falou também no grupo dos colaboradores e o elogiou. O casal que viera almoçar com ele era do elenco: ela, poetisa, com um poema estampado na página 25, e ele o cronista da página 5, com grande destaque. Dos dois, Teo conhecia apenas a poetisa, que integrava uma academia literária e era contumaz frequentadora da redação de jornais, aonde ofertava seus poemas para publicação graciosa. O cronista, bem mais jovem, parecia ser namorado da poetisa pelas atenções que lhe dava, embora pudesse ser filho da escritora, pois beirava os 25 anos, enquanto ela já se aproximava dos 50. – “Coisas desse meio literário, - depois explicaria Teodorico à sua mulher. “As fantasias aí proliferam. Ela é uma coroa à procura de mocidade e de emoções fortes, e ele pensa que alcança alguma projeção, escorando-se nela, que já tem certo renome”.

Tininha considerou que ela ainda era uma “coroa bonita” e devia ser boa instrutora de erotismo para um rapaz inexperiente.

Acomodaram-se todos na mesa de Teodorico, Gino pediu um vinho para celebrarem o nascimento da revista, e a conversa se espichou até às 2 da tarde, não sem fugirem de um recitativo de poemas da poetisa, que não perdia plateia em que pudesse exibir os seus dotes. Isidoro tinha-se aproximado do grupo, ficando em cinco os ouvintes atentos e efusivos da acadêmica.

Gino entendia que a sua iniciativa ia marcar época. A “Aurora” vinha para substituir a “Província de São Pedro”, revista cultural desaparecida há muitos anos e nunca substituída em Porto Alegre. Nesse passo, o Teo entrou em discordância, mostrou que a “Província” era editada pela Globo, uma empresa rica, e fora um periódico superior, tanto em tamanho quanto em apresentação gráfica.

- Acho que tu nem conheceste a “Província de São Pedro”. Do contrário nem farias essa comparação, - salientou Teo, sempre realista. -A tua revista é uma bela iniciativa, mas, vamos convir que é muito modesta. Pode ser que, no conteúdo até rivalize, mas terás que fazer muita força até editar algo como a “Província”.

O jato de sinceridade jogou água fria no entusiasmo da mesa, e Gino foi tratando de despedir-se, saindo com os seus convidados. Teodorico gostava do papel de “desmancha prazeres”.

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XXIII.

A mesa dos policiais andou desfalcada durante algum tempo, pois o Inspetor Jesuíno deixou de comparecer. Os amigos confabularam a respeito e logo chegaram à conclusão de que a causa seriam problemas conjugais. O comissário informou que ele pedira férias de uma hora para outra e não se sabia onde andava.

- Deve ser complicação com a família, - adiantou o Comissário. – O Jesuíno andou riscando fora da caixa, a mulher descobriu, e o clima andava pesado entre os dois. Ele chegou a me falar no assunto, faz algum tempo. Mas, de leve, sem aprofundar a informação. E eu não perguntei nada, pra não ser intrometido.

Certa tarde, quem apareceu no ABC foi a própria esposa de Jesuíno, a Dorilda, que Adalberto e Aldrovando apenas conheciam superficialmente. Trazia pela mão um dos filhos do casal, o mais novo deles, garoto de quatro anos. E sem pedir licença, puxou cadeira e foi sentando-se a mesa para iniciar um rosário de queixas contra o marido.

- Os senhores são amigos do Jesuíno, mas não sabem o sem-vergonha que se esconde naquele corpo.

Dorilda vinha pronta para o desabafo, mordida pela indignação.

- Eu já tinha descoberto que ele andava de amores com uma vagabunda, mulher deixada pelo marido, que foi nossa vizinha, e depois se mudou lá para a Vila São José, quando o marido cansou de ser corneado. Quando eu descobri a aventura dele, eu quis até me separar e pôr um fim no nosso casamento, mas ele jurou que o romance tinha acabado, prometeu que se emendava e me jurou fidelidade. Mas era tudo mentira do sem-vergonha. Faz duas semanas que ele saiu de casa, no fusquinha, dizendo que tinha sido mandado para o Interior do Estado a serviço, mas na verdade foi para uma praia, Quintão, se não me engano, na companhia da vagabunda. Fui lá na Secretaria e me informaram que ele tirou férias, recebeu dinheiro adiantado e teria saído em viagem com a família. Vejam só que cafajeste!

O delegado e o comissário não sabiam o que dizer, principalmente ao saberem que Jesuíno tinha se ausentado sem deixar recursos, e que Dorilda estava sustentando a casa com o magro rendimento de suas costuras. Ela ajudava o orçamento familiar com seu modesto ateliê de pequenas costuras, onde mais se incumbia de fazer bainha de calças, caseados, reformas, remendo de roupas para uma pobre freguesia de subúrbio.

Aldrovando quis saber com mais exatidão onde Jesuíno estaria, e por que a esposa supunha que estivesse em Quintão, balneário deserto àquela altura do ano. Até se dispunha a sair em procura do amigo, mas precisava de alguma certeza quanto ao seu paradeiro. Dorilda esclareceu que a tal mulher, amante do Jesuíno, possuía um chalé velho em Quintão, único bem que recebera do marido, quando se divorciaram. Disseram-lhe que era um casebre, e que decerto Jesuíno estaria lá trabalhando na reforma, improvisado em carpinteiro. Tinha saído de casa levando a caixa de ferramentas.

O comissário tomou nota do nome da mulher e das fontes informantes de Dorilda. A “conquista” de Jesuíno tinha sido vizinha próxima da família, era bastante conhecida, e não era desarrazoada a idéia de terem ido para Quintão. A mulher atraiçoada insistia em dizer que não queria mais ver nem a cara do marido, mas precisava resolver a separação, fixar pensão para a família, garantir um recurso para a sobrevivência. As crianças mais velhas já estavam na escola, tinham gastos elevados, havia aluguel a pagar, uma despesa mensal avultada.

Desde que Dorilda chegara, o delegado Adalberto a examinava com interesse. E lhe parecia que não era mulher desprezível, nem física nem moralmente. Mostrava personalidade, determinação. E não era de todo feia. Embora sem primores de estética, unhas e lábios sem pintura, cabelos lisos e mal aparados, não tinha traços grosseiros, nem corpo desajeitado. Certamente ficava bem como esposa do Inspetor Jesuíno, que não poderia pretender uma estrela de cinema. Adalberto indagou-lhe há quanto tempo estavam casados e se tinham um passado feliz. Dorilda esclareceu que estavam casados havia quinze anos e que até pouco tempo tinham tido uma boa convivência. Com algumas dificuldades financeiras, é verdade, pois o Jesuíno era boêmio, frequentador de bares, gastador. Mas sempre carinhoso com ela e com os filhos. “Até aparecer a maldita dessa puta que envenenou a cabeça dele” Acrescentou que era uma bonitona exibida, e que tinha fama de insaciável. “Uma vizinha já me disse que ela vai terminar matando o Jesuíno na cama, de cansaço!”

Adalberto considerou que se tratava de um desses casos de casamento que resvala na rotina, anestesiado pela mesmice da vida em comum e pelas dificuldades financeiras. E o Jesuíno, até então um comedido marido, se viu seduzido por mulher atraente e fora dos padrões de conduta da esposa legítima.

O comissário Aldrovando garantiu que faria investigações e que iria buscar Jesuíno onde estivesse, a menos que tivesse ido para fora do país. Dorilda agradeceu a solidariedade dos amigos, recusou comer ou beber qualquer coisa, só aceitando um refrigerante para o garoto, que, sem dizer nada, tinha ouvido todas as queixas da mãe. Logo em seguida se despediram, deixando contristados os dois policiais.

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XXIV.

Quando Lídia Chaves entrou no restaurante e escolheu uma das mesas do centro do salão, correu certo arrepio de emoção entre o público masculino. Lídia era mulher que atraía pela simples presença, independente do traje que vestisse, dos sapatos que usasse ou da ausência de qualquer maquiagem. Bastante alta, torso escultural, quadris bem torneados, mas longe de ser gorda, exibia um semblante preparado para o sorriso, como sucede às pessoas naturalmente alegres. Os braços mostravam que era afeiçoada a exercícios físicos, e a tez era queimada de sol, sem cosméticos nem bronzeadores. Pernas longas, bem desenhadas pela saia justa, e seios firmes, levemente projetados sob a blusa de malha.

Mal se havia sentado, quando Isidoro deixou o balcão, aproximou-se de sua mesa e falou, mostrando que a reconhecia:

- Tu não és a Lídia Chaves, de Rio Grande? Quanto prazer em te ver na minha casa!

Lídia estendeu-lhe a mão, disse que se lembrava dele, talvez dos veraneios na praia de Cassino, talvez de alguma festa.

- Só não lembro o teu nome. Acho que tinhas apelido, como acontecia com toda a gurizada.

Isidoro confirmou que era conhecido por Dorinho. E acentuou que era alguns anos mais velho do que ela, não pertenciam à mesma turma, nem frequentavam a mesma escola. Mas era do seu fã-clube, “como toda a rapaziada de Rio Grande”.

Lídia sorriu, sentindo-se alvo de um galanteio. E Isidoro quis saber como ela descobrira o seu restaurante, entre tantos outros. Ela explicou que estava em Porto Alegre para uma pós-graduação, cuidava de ir conhecendo melhor a cidade. e um conterrâneo lhe tinha recomendado o ABC, que era de riograndino e servia bons pratos de peixe.

Isidoro chamou Betão, mandou trocar a toalha de plástico, apresentou a freguesa como conterrânea “vip” e lhe recomendou o tratamento correspondente.

Num instante de folga, atrás do balcão, Isidoro contou ao garçom que a moça era herdeira de um riquíssimo fazendeiro, formada em Agronomia, segundo lhe disseram, e administrava pessoalmente a estância da família.

- É casada? – quis saber o garçom.

- Claro que deve ser. Tu achas que uma mulher como essa aí ia ficar solteirona?!

Riram os dois, ainda impressionados pela beleza da mulher, o discreto perfume que ela exalava e a elegância simples que exibia.

Quando o movimento dos almoços terminou, Isidoro aproximou-se outra vez da mesa de Lídia, para saber como fora servida e reiniciar a conversa que haviam interrompido. Lídia elogiou o linguado “à moda da casa” e gabou a gentileza do garçom. Depois quis saber por que e quando Isidoro abandonara a terra natal.

- Ora, Lídia, os azares da vida. Vim tentar o vestibular de Medicina em Porto Alegre fui inabilitado duas vezes e terminei no comércio.

- Que lástima! E nunca mais quis fazer um curso superior?

Isidoro explicou que não tivera interesse por outras profissões, e a necessidade de trabalhar o tinha jogado na voragem do comércio, onde afinal não se dera mal. Era uma vida trabalhosa e sacrificada, mas o restaurante lhe dava satisfações, travava conhecimento com pessoas interessantes e reencontrava conterrâneos, como era o caso de Lídia.

Indagada sobre o que estudara, ela explicou que tinha-se formado em Zootecnia, uma paixão herdada dos pais e dos avós, e com o sentido de aperfeiçoar as técnicas da estância. O pai já estava idoso e cansado, era ela a única filha interessada pela gestão dos negócios.

- E o marido? – indagou Isidoro imprudentemente.

- Marido já era. Estou descasada faz quatro anos.

Isidoro comentou que coincidiam quanto ao estado civil, riram juntos, e Lídia chamou Betão pedindo pela conta, talvez para encerrar o interrogatório. O dono do restaurante sentiu ganas de dizer que o almoço era brinde da casa, mas se conteve, limitando-se a insistir que voltasse outras vezes, que era uma honra e um prazer recebê-la no ABC, seja no almoço, seja no jantar. À noite seria melhor. Ele teria mais tempo para conversarem.

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XXV.

Os rapazes da Imobiliária Vida Nova frequentemente se reuniam no ABC na hora do almoço. Eram três ou quatro, sempre de paletó e gravata, calçando sapatos de couro, pois o dono da empresa era dos antigos, e entendia que a intermediação de compra e venda de imóveis exigia boa apresentação. Nada de tênis, mesmo que fossem de marca famosa, nem camisetas ou abrigos esportivos. O figurino do velho Marcolino Andrade, que já beirava os oitenta anos, ainda era o da década de 1950, quando ele tinha começado a trabalhar no ramo imobiliário. Mas os jovens suportavam as suas manias, porque o “poderoso chefão”, como o qualificavam à distância, eras um corretor eficiente, com boa clientela, o que sempre lhes garantia parcela razoável de comissões. Quando chamado para negociações mais complicadas, os argumentos dele eram exemplares, por aliciantes e convincentes.

- Seu Marcolino convence até um poste, - dizia um de seus veteranos agentes.

Uma das manias dele, condenadas por seus auxiliares, era a de não querer aceitar mulheres no quadro de corretores da empresa. O velho alegava que elas não poderiam frequentar certas áreas da cidade, que tinham temores exagerados, e que podiam ceder ao assédio e às cantadas de clientes.

Mas naquela manhã de terça-feira, parece que Marcolino teria alterado seu modo de pensar. Sem prévio aviso e mesmo contrariando seus hábitos de almoçar em casa com a família, apareceu no ABC acompanhado de uma senhora de meia idade, que ele logo apresentou aos agentes da Vida Nova como “futura colega”. A surpresa foi geral, e os rapazes, embora sem dizer nada, logo imaginaram que se tratasse de alguma conquista senil do chefão. Ele não era inclinado a aventuras amorosas, mesmo depois de enviuvar. Entretanto, ali estava ele apresentando uma mulher como “futura colega, em contradição com todos os discursos anteriores. Não tardou a explicação: a Shirley, recém apresentada, operava como corretora de imóveis em Canoas, e tinha-se mostrado tão eficiente na negociação da venda de um edifício de apartamentos, sendo comprador um parente do chefe, que Marcolino se convencera da habilidade e eficiência das mulheres. Tinha acompanhado a transação a pedido do adquirente, até desaconselhara o negócio a princípio, por entender que o preço era exagerado e que o prédio demandava reformas, porém a Shirley destruiu todos os seus argumentos, convenceu o comprador, e a operação se consumou.

Depois desse resultado, a corretora de Canoas tinha sido convidada para vir trabalhar em Porto Alegre com a Vida Nova. Nas conversas então mantidas, a Shirley destruiu todos os preconceitos de Marcolino, até porque o veterano Antenor tinha sido dispensado, e a firma estava precisando ampliar seu quadro de corretores.

O Zé Figueira, que era o mais antigo dos servidores da empresa se incumbiu de cumprimentar a nova colega:

- Shirley, acho que você pode ganhar um prêmio das feministas. Convencer o nosso chefe de que mulheres podem ser eficientes no ofício, foi algo mais que um milagre.

Enquanto almoçavam, os rapazes puderam notar que a Shirley era mulher inteligente, ligeira na argumentação e bem informada naquele ramo de negócios. A escolha feita pelo velho Marcolino não fora desarrazoada.

- Se há uma coisa que a vida me ensinou é conhecer as pessoas. Nunca me engano, - rematou o patrão num de seus surtos de vaidade, ocultando que fizera muita investigação sobre a pessoa de Shirley antes de convidá-la. Não era intuição nem simpatia à primeira vista.

E como sempre tinha um “porém” para amenizar elogios e colocar pedras no caminho de seus auxiliares, acrescentou: - O que ela precisa agora é se adaptar a Porto Alegre, conhecer a cidade que ela não conhece, e aprender alguma coisa com vocês.

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XXVI.

O drama familiar do Inspetor Jesuíno comoveu seus amigos, especialmente o Comissário Aldrovando, que ficou decidido a interromper a aventura amorosa do colega, e fazê-lo retornar à companhia da esposa e dos filhos. Já acompanhara muitos desses casos: casamento que cai na rotina, desinteresse recíproco de marido e mulher, e, de súbito, um dos cônjuges destrilha, abandona a casa e a família, com inevitável comprometimento das finanças do casal e do equilíbrio dos filhos. Com 50 anos de idade, tinha visto de tudo, não só em casos de polícia, mas também entre parentes., vizinhos e colegas de trabalho. Jesuíno estava próximo dos 40, uma idade que o Comissário tinha como perigosa para a estabilidade dos casamentos. Quarenta anos de idade, quinze de matrimônio, três filhos, vida apertada, diminuição do apetite sexual... Aldrovando também já passara por momentos de inquietação naquela idade e em circunstâncias semelhantes.

Por isso, não teve dúvidas em fazer algumas investigações, e em botar o carro na estrada, no rumo da praia do Quintão, onde foi encontrar o Jesuíno em plena faina de reformar o chalé de tábuas da namorada. Já tinha trocado tábuas podres do piso do avarandado, substituído telhas quebradas, renovado a caiação externa. Serviços que não eram de sua experiência nem de sua predileção. Só aceitos como preço dos favores sexuais da fogosa namorada. Porém com três semanas de lua de mel intensa, seu elã inicial estava apaziguado, e doíam-lhe os novíssimos calos da mão direita, as costas e a coluna lombar. Daí ter recebido sem protestos a visita intempestiva do Comissário, em quem logo adivinhou um emissário de reconciliação familiar e do “deixa disso”.

Afastaram-se da casa e foram até um bar das proximidades para conversar à vontade. Aldrovando logo lhe censurou a conduta, e, com duro realismo, lhe fez o prognóstico para os próximos meses e anos: apertura financeira, em face da contingência de pagar pensão alimentícia à esposa e aos filhos, perturbação total na vida dos meninos. Jesuíno ensaiou replicar contando a insipidez de sua vida com a Dorilda e o adormecimento do sexo, em contraste com o fragor dos amores com a nova companheira.

- Compreendo, meu amigo. Mas tu achas que esse tipo de relação pode durar muito? Tens obrigações, tens um trabalho a fazer. A tua casa não pode ser um motel, onde só se pensa em fazer sexo. E daí a pouco vais estar cansado, se não for ela que vai cansar de ti e procurar um cara mais novo.

A discussão foi prolongada, mas Aldrovando sentiu em Jesuíno algum arrependimento, quando o Comissário contou que Dorilda, ressentida e chorosa, havia procurado os amigos dele no Restaurante ABC, na companhia do garoto caçula. Mais ainda quando ele se disse autorizado por ela a combinar o valor da pensão alimentícia.

Voltaram para casa quando já passava do meio-dia, o Comissário na expectativa de ser convidado para almoçar. Mas não havia almoço nenhum. A comborça tinha dormido toda a manhã e não estava a fim de cozinhar. De resto, ficou mal humorada com a visita de Aldrovando, pressentindo nele um emissário da esposa abandonada. Tratou-o com aspereza e não aceitou o convite para irem almoçar no hotel do balneário. Foram sozinhos os dois policiais, e o Comissário aproveitou a deixa para explanar suas filosofias:

- Meu companheiro, mulher é isso aí: imprevisível! Tu só vais conhecer a criatura depois de uns dois anos de convívio. E a que te parecia um anjo se revela às vezes um demônio.

Falou ainda de Dorilda e as crianças, dos resultados da desorganização familiar, das dificuldades para sustentar duas casas. E explanou mais sobre a possibilidade de uma reconciliação e o começo de uma nova vida reciclada, com a correção dos erros cometidos de parte a parte.

Ao final do almoço, Jesuíno estava convencido a voltar para casa, se a esposa o aceitasse, e se Aldrovando promovesse a reaproximação e os recíprocos perdões, também dando conselhos à Dorilda, que muito precisava deles, para um desempenho melhor na vida conjugal. O Comissário prometeu interessar a sua própria esposa nas negociações e nesse aconselhamento.

Na semana seguinte, com a presença do delegado Adalberto na mesa do ABC, festejou-se a volta de Jesuíno, que, ainda hospedado em casa do Comissário, estava tentando a reconciliação com a esposa. Esta ainda se dizia com asco e raiva do marido, mas ia cedendo aos rogos das crianças, às lágrimas e às escusas do aventureiro arrependido. Ainda não o aceitava na cama, mas já o tolerava diante da televisão e na mesa do café, na companhia dos filhos. Acreditava o Jesuíno que ela demoraria em ceder, tantos eram os agrados e as promessas que ele lhe fazia.

Enquanto isso, ele tinha que aguentar as piadas e a gozação dos amigos:

- Como é, Jesuíno Troca do óleo, nada por enquanto? – indagava o delegado Adalberto. Está demorando essa penitência.

Porém o Comissário Aldrovando encaminhava noutro sentido a brincadeira.

- O Jesuíno precisava de uma trégua. Ele veio da concentração com treinamento intensivo. Acho que chegou aqui meio desgastado, necessitando de um repouso antes de começar outro campeonato.

- E não vá dar um vexame agora, só porque trocou de treinadora, -completava o Adalberto.

Jesuíno, deprimido, não aceitava muito bem as brincadeiras e a intrusão dos amigos em sua vida privada. Mas a amizade entre eles era tão antiga que precisava suportá-las sem reação. Tanto mais que, enquanto não era admitido em sua casa, o Comissário é que lhe estava ajudando, até lhe dando hospedagem e fazendo, com a esposa, um trabalho de aconselhamento junto à indignada Dorilda.

Aos poucos, esta começava a ceder. Parecendo irredutível a princípio, e querendo o fígado de Jesuíno, comovia-se, depois, com o afeto que os filhos mostravam pelo pai e se apavorava com a ideia de ficar sozinha com as crianças, a depender de pensão alimentícia e de boa vontade do marido.

- O clima entre nós já está melhor. Só que ela é muito religiosa, e quer que eu vá na igreja me confessar e cumprir a penitência que o padre me der. A isso eu estou resistindo, porque seria muito ridículo, - explicava ele aos amigos.

A certa altura, desfazia-se a roda dos policiais, mas ficava no ar a ansiedade pelo próximo capítulo da novela Jesuíno x Dorilda.

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XXVII.

O garçom Betão era um severo vigilante quanto à qualidade da freguesia do restaurante. Conforme a aparência, se muito desleixado e sujo, o freguês não era atendido, até desistir e se retirar. Prostitutas facilmente identificáveis, quando desacompanhadas, também não eram atendidas. Grupos muito barulhentos, a comemorar vitórias ou partindo para excursões festivas, eram estimulados a sair, com a alegação de que a cerveja estava quente, ou “hoje a Brahma não fez a entrega”. Tais providências garantiam um bom nível de frequência. Mantendo o ABC no padrão das casas usadas pela classe média, apesar da localização numa área periférica do Centro, onde já estavam localizadas pequenas oficinas, pensões de estudantes e lojas de segunda linha. E isso explicava que o procurassem profissionais liberais, funcionários graduados e comerciantes prósperos. Não exatamente a alta burguesia, mas essa camada intermediária que ainda usa eventualmente a gravata e o traje de passeio, mas, não procurando os restaurantes mais caros, deseja ser atendida em casas de boa cozinha, tranquilas e higiênicas.

Isidoro achava que às vezes o Betão se excedia no processo seletivo, afugentando clientes que poderiam ser vantajosos. Mas não contestava o faro de seu garçom, que sempre afirmava conhecer o “cego dormindo” e o “rengo sentado”. Ele tinha mesmo uma longa experiência no atendimento ao público, grande sensibilidade para adivinhar “maus elementos”, negadores de conta ou simplesmente inconvenientes para o convívio.

Naquele sábado, à hora do almoço, Isidoro notou que uma freguesa reclamava a demora em ser atendida e chamava Betão com insistência. Resolveu abordá-la e saber a razão de seus reclamos. Quando deixou o balcão e se aproximou da mesa da reclamante, viu que se tratava de uma personagem estranha, de cabelos oxigenados, meio desgrenhada, vestido dourado e botas amarelas.

- Esse garçom é surdo, ou não quer me atender ? – indagou ela com uma voz irritada e um tanto rouca.

- A senhora desculpe a demora. Estamos com muito movimento, e o garçom é sozinho para atender todo o salão, desculpou-se Isidoro.

Entretanto, interpelou Betão sobre os motivos de sua demora, já adivinhando que estivesse em curso um processo seletivo.

- Mas o chefe não vê que é um travesti nojento e chinelão?

- Tens certeza? Não será uma senhora de voz rouca ?

- Ora, patrão. Eu conheço travesti de longe. E aquele tem um pé quarenta e quatro que não engana ninguém.

Isidoro aproximou-se outra vez da mesa da reclamante para pedir paciência, “pois hoje estamos muito atrasados”, e conferiu as botas da suposta freguesa. Eram realmente de forte dimensão, incompatível com pés femininos, a queixada era larga e poderosa, as mãos de estivador. O Betão tinha razão; travestis daquele tipo não faziam o gênero conveniente ao ABC.

- Continua dando gelo na figura, que ela vai embora.

O travesti percebeu alguma coisa no diálogo do garçom com o patrão e terminou por levantar-se da mesa, protestando em voz alterada contra a demora e o mau atendimento da casa.

A freguesia habitual logo entendeu o que tinha acontecido, e o delegado Adalberto solidarizou-se com o garçom: - “Boa, Betão, despachaste o traveca! E não faltou, como epílogo, uma gargalhada estentórea do Bauer, lá na mesa 1.

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XXVIII.

O Marítimo continuava dando provas de sua tendência para a fabulação. Era só encontrar uma audiência tolerante para ouvir suas histórias, e ele as desenvolvia com eloquência e garbo. Naquela sexta-feira, dia de maior movimento no restaurante, um dos rapazes da Imobiliária não encontrou mesa desocupada, e Fábio o convidou para sentar-se na dele. Desde muito conheciam-se de vista, como fregueses habituais do ABC, mas nunca tinham conversado. Sozinho, longe de amigos que policiassem sua inventiva, o Marítimo se soltava.

Muito cortês, começava sempre por indagar coisas de interesse do interlocutor:

- Como vão os negócios? A crise não está atrapalhando muito?

O rapaz, que era um dos corretores da Vida Nova, respondeu que a tão falada crise ainda não era coisa que se percebesse no ramo imobiliário. O interesse pela compra de imóveis era grande, a inflação começava a assustar, e o investidor procurava aplicações seguras. O Marítimo fez mais algumas perguntas, quis saber qual era a comissão cobrada pela Imobiliária. Considerou módica a remuneração de seis por cento, cobrada pelos corretores. E, como era do seu estilo, mostrava-se entendido em todos os assuntos, contando ainda casos exemplares, com ele acontecidos.

Em conversa com um corretor, nada mais adequado para narrar do que o episódio da intermediação da venda de uma fazenda, em que ele tivera relevante papel. O caso fora há muitos anos, quando ele navegava pelo Jacuí e o Taquari, num dos barcos da Arnt. Tinha travado conhecimento com um fazendeiro de Santa Maria, interessado em comprar um estabelecimento rural próximo de Porto Alegre. A princípio não se lembrou de nenhum, o seu negócio era com os barcos e com os rios, mal conhecia as cidades onde atracava. Porém um dia, “botando conversa fora”, como usava dizer, ficou sabendo de uma família de São Jerônimo que andava em conflito, seis irmãos explorando a mesma área em condomínio, e então em desavença. Quatro deles inclinados a vender a propriedade, os outros dois teimando em continuar a comunhão do campo. E era uma área cobiçada, campo de boa qualidade, mangueiras, banheiro de gado e benfeitorias. Chegando a Porto Alegre encontrou o ruralista de Santa Maria e lhe deu a dica: - “Chegue neles e faça uma oferta boa que eles se entregam.”

O fazendeiro já tinha corretores empenhados na busca de um negócio e precisou mobilizá-los para um contato com a tal família, o que não foi nada fácil. Mas, por grande coincidência, um dos condôminos da fazenda era tio de um taifeiro do navio em que Fábio trabalhava, e esse taifeiro, muito amigo do Marítimo, apresentou-o aos proprietários da área. Esses dois renitentes não aceitavam os argumentos dos corretores e continuavam teimando. Até que o Fábio desdobrou com eles uma argumentação irresistível, e eles terminaram aceitando a venda da propriedade.

- E o senhor não levou comissão nenhuma? – quis saber o agente de Imobiliária.

O Marítimo não seria jamais um perdedor. Fazia parte de sua história, além do relacionamento com eminentes figuras e a presença ocasional nos grandes acontecimentos públicos, uma sequência de generosas vitórias.

- Ora, você sabe: os corretores tinham a comissão deles garantida, tinham trabalhado e tentado a aproximação. Eu era um simples amador, no caso, agindo por camaradagem com o comprador. Mas ele era compreensivo e até me fez uma boa doação. Com o cuidado de não precisar a importância, o Marítimo esboçou um sorriso de satisfação disfarçada. A vitória pessoal que devia impressionar o interlocutor completava-se com a mostra de desambição.

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XXIX.

Para completa satisfação de Isidoro, sua conterrânea Lídia Chaves tinha gostado da comida e do ambiente simples do ABC. E já tinha comparecido mais duas vezes, à hora do almoço, para deslumbramento dos frequentadores da casa, do garçom e do proprietário. Mesmo trajando com simplicidade, sem maquiagem nem calçados de salto alto, nem roupas de grife, seu rosto belo e simpático, mais a elegância de sua silhueta sob a saia justa atraíam não só os homens como as próprias mulheres.

- Se essa coroa se produzisse mais, fechava o comércio... – comentava o delegado Adalberto com os companheiros de mesa.

Da primeira vez em que a viu, o Eloy Schmidt se alvoroçou, procurando aparecer para ela de qualquer modo, desfilando repetidas vezes pela sua mesa e olhando-a com insistência importuna. E até a Dona Joana, na solidão de sua mesa de canto, comentou com Isidoro:

- Que moça bonita! Uma cliente assim valoriza o teu restaurante.

Isidoro sabia disso e estava exultante por vê-la outra vez na casa. Na terceira aparição da deusa, tinham conversado com mais vagar, e ele insistiu para que ela viesse à noite, quando poderiam relembrar melhor as coisas da adolescência e da juventude em Rio Grande. Ela não repeliu a ideia, até porque havia simpatizado com os modos, a cortesia e a simplicidade do conterrâneo, dono do ABC.

Depois de divorciar-se, algo ferida e humilhada pela má escolha que fizera antes, Lídia vinha afastando a ideia de um novo relacionamento, e tinha aderido à espécie das difíceis, que enxergam defeitos em todos quantos se aproximam delas. A condição de mulher rica e bonita tornava-a alvo de muito assédio, e ela sentia a premente necessidade de se defender dos pretendentes, fosse quem fosse.

Não foi logo que Lídia atendeu ao convite para aparecer na hora do jantar. Sabia que isso representava uma concessão e talvez a abertura para outros convites que ela não estava a fim de aceitar. Voltou em outros almoços, sempre alegando pressa e compromissos com os estudos de sua pós-graduação. Mas ela apreciava a verve e as tiradas humorísticas de Isidoro, afora a sua inegável cortesia.

- Eu compreendo, Lídia, que uma mulher da estirpe dos Chaves, filha do Doutor Lindolfo, não pode aceitar com muito prazer, a amizade de um bolicheiro. Porque, verdade seja dita, lá na nossa campanha, entre a Quinta e o Taim, eu não passo de um bolicheiro, não é mesmo? Talvez um bolicheiro bem sucedido, e só isso.

Lídia riu muito, protestou que não tinha pretensões de nobreza, e que o ABC não merecia ser comparado a um bolicho. E como era apreciadora de poesia campeira, trouxe para o amigo, na semana seguinte, uma cópia ilustrada do poema de Silva Rillo, “No bolicho”. Isidoro agradeceu muito a gentileza, mas, conhecendo o teor do poema, protestou contra as estrofes finais, que não queria aplicadas a ele: “Caí no tiro de laço/ de um olhar de china atrevida/ que embuçalou minha vida/ na armada negra das tranças/ pra depois de ter-me preso/ marcar-me com seu desprezo/ na picanha da esperança”.

Satisfeito com a brincadeira, Isidoro mandou emoldurar o poema e o colocou na parede atrás do balcão. O que provocou protestos de Lídia:

- Minha oferta não era para te ofender, nem ofender o restaurante. Foi apenas porque eu gosto do poema e porque te definiste como bolicheiro.

O episódio favoreceu a aproximação dos dois, e, numa sexta-feira, Lídia telefonou à tarde, dizendo que tinha um compromisso em local

próximo do ABC, e por isso aceitava a ideia de ir jantar no restaurante àquela noite. Apesar da prévia explicação, que não passava de desculpa defensiva, Isidoro compreendeu que começava um processo de abertura e logo se embandeirou de felicidade. Convidou-a então para outro restaurante, que fosse mais alegre e de mais categoria. “Um episódio como este não pode ser comemorado no meu bolicho!”, acrescentou.

Isidoro preparou-se como convinha. Vestiu seu melhor “blazer” e sua calça mais elegante, perfumou-se e foi buscá-la em casa. Naquela noite, Lídia caprichou no traje e nos adereços, apareceu linda. E foi inevitável: o romance dos dois começou ali, num bistrô do bairro Moinhos de Vento, com uma sequência de revelações recíprocas, sob o calor de um vinho tinto. E por enquanto foi só, apenas com um beijo de despedida, ao final da noite. Ela encerrou o encontro alegando que tinha que acordar cedo e estudos a fazer. Ele, desolado pelo final antecipado, ainda assim ficou faceiro com esse primeiro ”round” de namoro. Lídia Chaves era o máximo que podia desejar como namorada.

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XXX.

A roda de jornalistas que às vezes se formava na mesa do Teodorico parecia agitada pelo comentário que fizera o Mendonça. A “Aurora Cultural”, revista lançada pelo Gino Rossi havia algum tempo, tinha deixado de circular já antes do terceiro número. Lançado o primeiro com alguma propaganda, seguiu-se com alguma demora um segundo, de menos páginas e magra publicidade, mas o terceiro não apareceu, sem explicação nenhuma aos assinantes, mesmo àqueles que já tinham pago as assinaturas. Quanto ao Gino, também tinha saído de circulação, não sendo visto mais nos locais que frequentava, constando que se ausentara de Porto Alegre.

- Eu tinha alertado o cara sobre os riscos de um empreendimento sem capital próprio e sem uma base sólida, - ponderou o Teo. – Mas ele estava empolgado, otimista, acreditava que ia vencer todas as dificuldades.

- E os assinantes, enganados, acabam achando que foram vítimas de um golpe, - comentou o Mendonça.

Outro participante da mesa, menos indulgente, afirmou:

- Me desculpem os amigos dele, mas é claro que foi um golpe, clássico estilo 171. Quem não conhece esse truque de ganhar dinheiro? Lança-se um jornal ou revista, vendem-se assinaturas e até espaços de publicidade com antecipação, recolhe-se uma grana boa, e a revista desaparece sem deixar rastro. Aqui no Estado, não é o primeiro caso.

Teo ensaiou uma defesa de seu amigo Gino:

- Acho que não foi esse o caso do Gino. Ele é boa pessoa, não é malandro. É apenas ingênuo. Estava empolgado com a ideia de uma revista literária e acreditou que seria fácil editar uma, desde que tivesse apresentação modesta e colaboradores voluntários.

- Me perdoa, Teo, mas esse tipo de ingênuo não existe mais. Se ainda fosse um rapaz de vinte anos, vá lá. Mas um jornalista cancheiro e experiente como o Gino Rossi não tem desculpa.

A Tininha, que era mulher bondosa e tendente à indulgência, interveio:

- Mas ninguém ouviu o Gino até agora. Ele não tem vindo aqui, deve ter alguma explicação para o atraso dessa edição.

- Tudo bem, Tininha, você é uma pessoa tolerante. Mas, pelo que eu sei, o atraso já vai para dois meses. E o homem sumiu do mapa.

A discussão não foi mais longe, porque Mendonça alertou que já eram quase duas da tarde, era preciso ganhar a vida. E ironizou: - “Sem assinaturas para vender”.

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XXXI.

As plásticas a que se submeteu a advogada Leonor aparentemente não produziram resultados imediatos. Durante vários meses, ela apareceu solitária em sua mesa, seja nos almoços, seja no “happy hour”. E parecia ainda mais abatida e desesperançada, depois do trágico fim do seu apaixonado Maurício.

Mas eis que, no final do Inverno, começou a frequentar sua mesa um acompanhante inusitado, rapaz ainda jovem, com ares suburbanos, calça de brim desbotada e camisa de cores berrantes, um jeito incompatível com a distinção de uma advogada próspera e de boa reputação. A distância das idades de um e outra era gritante: pelo menos vinte anos. De boas maneiras à mesa, não se podia exigir muito: ele cultivava um palito entre os dentes após a refeição, empunhava o garfo com crueldade contra o bife e eventualmente apoiava uma das pernas sobre a cadeira mais próxima.

A repetição dos encontros logo despertou a curiosidade de alguns dos frequentadores da casa. E o comissário Aldrovando foi o primeiro a apresentar o seu diagnóstico aos companheiros de mesa: “A advogada agora arranjou um gigolô. Cuidem só o jeito do malandro!”

O delegado Adalberto, que já tinha observado algo de suspeito no acompanhante da doutora Leonor, concordou com a observação. E passou a fazer considerações sobre o fado infeliz das mulheres feias. Mesmo quando ricas ou socialmente vencedoras, podiam cair nas mãos de um gigolô safado, como parecia ser o caso da advogada. A falta de homem podia levá-las a aceitar o primeiro patife que aparecesse.

Aldrovando não deixou de fazer sua investigação voluntária e gratuita. Logo tratou de campanar o namorado da bacharela e descobriu que era um motoboy, prestador de eventuais serviços ao escritório da advogada, trazendo e levando documentos em sua motocicleta. A aproximação se tornara possível graças às gentilezas da mulher, às gorjetas generosas e aos jantares no Restaurante ABC, com aperitivos e cervejas. Isto, naturalmente, já era a conclusão do Comissário, ditada por sua intuição e experiência de vida.

Pelo que observaram os policiais ao longo das semanas, a sorte do rapaz tinha melhorado sensivelmente. Ganhou motocicleta nova, camisa elegante, tênis de grife. A advogada sabia remunerar as atenções do motoboy, que certamente lhe trazia alegrias e prazeres inusitados. Maldosamente, a mesa dos policiais esperava pelo fim do romance, que certamente haveria de acontecer, quando secasse a fonte dos presentes e das gentilezas.

O garçom Betão também acompanhava com interesse o caso. Como homem trabalhador e sério que era, tinha ojeriza por malandros e aproveitadores. Por isso, não deixava de repreender o motoboy quando este acendia cigarro na área dos não-fumantes. E sempre mostrava certa hostilidade àquele freguês parasita, que nunca pagava sequer uma conta, nem lhe dava gorjetas.

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XXXII.

Só na hora do almoço foi que vieram avisar Isidoro que Dona Joana tinha falecido e se enterrava, esta mesma tarde, no Cemitério de São Miguel e Almas. A morte súbita daquela antiga freguesa o emocionou. Ele a considerava como parte da casa. Não dos “móveis e utensílios”, como se usa dizer, pois seria materializar algo que era do espírito e dos sentimentos da casa. Havia muitos anos que ela almoçava no ABC, até nos dias chuvosos e frios, quando faria melhor se ficasse em resguardo.

Entretanto, ela precisava daqueles momentos de recreio, hora de conversar com estranhos, ouvir histórias e fazer suas queixas contra a velhice e contra as doenças.

Ainda na última semana, ela tinha mantido conversa um tanto melancólica com Isidoro. Era um dia muito bonito, de sol forte e temperatura amena, um dia desses que convidam a passear no campo ou a navegar no Guaíba, ou pelo menos sentar num banco de praça e olhar a tarde que chega, sem pressa e sem compromissos. Dona Joana comentou a beleza do dia e acrescentou:

- Dorinho, meu amigo, um dia como este, em vez de me trazer alegria, me deixa triste. E sabes por quê? Porque me dá saudades antecipadas da vida que vai passando, que para mim não demora a acabar. Eu olho o mundo, tão bonito, e fico pensando que daí a pouco eu não vejo mais o sol, nem o verde das árvores, nem a beleza das flores.

Isidoro a interrompeu com um protesto.

- Que é isso, dona Joana? A senhora ainda vai durar muito, não cultive a tristeza.

- Ah, Dorinho, na tua idade tu não sabes o que é isto: ter saudade da vida, porque ela está chegando ao fim.

Nessa ocasião, a senhora não conseguiu dissimular a lágrima insistente que lhe escorreu de um dos olhos. Foi demais para Isidoro, que a acompanhou na emoção.

E agora esta notícia. Trazida por um vizinho de apartamento: a velhinha tinha morrido quase subitamente, na noite anterior. Mal houvera tempo de chamarem um médico, e ela se apagou, sem maior sofrimento. A filha que morava no Rio de Janeiro deveria chegar ainda antes do enterro, pelo que esperavam os vizinhos e as amigas.

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